Grande Reportagem SIC

A Fonte

Luís Manso

Luís Manso

Jornalista

Os rostos e o rasto do dinheiro que se perdeu na Caixa entre 2000 e 2015

Quanto perdeu a Caixa Geral de Depósitos (CGD), com créditos considerados ruinosos para as contas do Banco Público?

A resposta passa por um relatório já entregue na Assembleia da República e que abriu caminho a numa nova Comissão Parlamentar de Inquérito. A SIC agarrou no documento e foi à procura de respostas, dos rostos dos principais empréstimos, das grandes figuras do banco, no período entre 2000 e 2015.

São quase 200 operações de crédito, as que são analisadas pelos auditores. O buraco na CGD, nesta verdadeira fonte de empréstimos, ultrapassa os 1.600 milhões de euros. Financiamentos para arriscadas compras de ações de bancos concorrentes, empreendimentos de luxo no Algarve, que se encontram agora parados, estradas e fábricas que chegaram a ter o selo de Projeto de Interesse Nacional.

Um dos projetos passa pela Quinta do Lago, no Algarve, ligado a um britânico, que deixou um rasto de milhões que estão a ser reclamados por dezenas de credores, incluindo a CGD. Há ainda a antiga fábrica da Artlant, em Sines, que se apresentou como uma das grandes promessas no setor petroquímico em Portugal. Tornou-se num pesadelo para a o banco público, apesar de se erguer agora, através dos tailandeses da Indorama Ventures, como um gigante de forte relevo nas exportações nacionais.

Críticas ao relatório da E&Y

É em meados da década passada que são cedidos alguns dos principais créditos que se revelaram desastrosos, incluindo o polémico financiamento a Joe Berardo, para a compra de ações do BCP. "Muitas inverdades, falsidades e especulações tem sido tecidas, com base nessa divulgação pública do relatório", referiu o Comendador, numa resposta por escrito, enviada à SIC, acrescentando que "a opinião pública já se encontra intoxicada pela campanha que tem sido feita".

Pedro Cardoso, ex-administrador da CGD, no período entre 2008 e 2011, diz à SIC que os bancos não estavam preparados, na altura, para a dimensão do impacto da crise que bateu à porta do país e das instituições, no final da década passada.

"Em setembro, outubro de 2008, estive nos encontros do FMI. Quando voltei para casa pensava que o mundo ia acabar. Essa era a perceção que havia nessa altura e tivemos isso em consideração", diz Pedro Cardoso, na entrevista que deu à SIC.

É realçado o trabalho que a Caixa sempre fez para se adaptar aos perigosos sinais dos tempos. Ainda assim, houve avisos que foram feitos e alertas que iam surgindo. A SIC falou com vários ex-administradores, que não quiseram gravar uma entrevista, e que garantem que tudo fizeram de acordo com o que estava definido.

E é a partir deste ponto que surge uma das mais duras e fortes críticas ao documento dos auditores da E&Y: a forma transversal como foi feita a análise, com a referência a regras e procedimentos que em determinados períodos ainda não tinham sido implementados. Alguns dos administradores ouvidos pela SIC, incluindo Pedro Cardoso, criticam ainda a forma como foi feita a análise, sem uma comparação entre a CGD e as restantes instituições financeiras, como o BCP ou o BES/Novo Banco.

"Os autores deste relatório estão a fazer uma análise com base num enquadramento regulatório e normativo atual, face a uma situação passada. Vão citar um conjunto de regulamentações e de leis que são posteriores ao nosso mandato", refere o antigo administrador da CGD.

São analisados neste relatório várias operações de crédito,e também participações financeiras, ao longo de 15 anos e com a lupa a passar pelos 44 nomes, entre políticos e gestores, que se sentaram nas cadeiras do banco público.

O resultado final é um impacto de vários milhões, que levou a que o Estado tivesse de recapitalizar a Caixa, com impacto no défice. A fonte nunca chegou a secar, sendo que a verdadeira dimensão do problema começa agora a vir ao de cima.