Visíveis

"Quando a polícia passa, fico com medo!"

Quinta-feira no Jornal da Noite

Mariana Teófilo da Cruz

Mariana Teófilo da Cruz

Jornalista Estagiária

Muitos negros têm receio de ser tratados pela polícia como se fossem criminosos. Na Grande Reportagem Visíveis - Ruca conheça os casos de quem já sentiu na pele o preconceito racial.

Ruca

“O meu nome é Rui Barai, mas conhecem-me por Ruca. Tenho 22 anos e sou estudante de Direito.

Um dia gostaria de regressar à Guiné, onde nasci, porque cá serei apenas mais um advogado e lá poderei marcar a diferença.

Sempre soube o que quero, inspirado pela fé de Desmond Tutu, a luta de Nelson Mandela e o sonho de Martin Luther King. Mas, acima de tudo, tenho fé na filosofia Ubuntu: a mudança deve começar em nós; sei que sozinho não posso mudar nada. Eu sou, simplesmente, porque vocês são”.

(Rui “Ruca” Barai morreu em 2017)

Mário Mendes


“Nasci em Cabo Verde, mas vivo em Portugal há 45 anos. Fiquei cego quando tinha 20 anos, por causa de um descolamento da retina.

Vivo na Portela de Carnaxide, onde já fui líder associativo. Muita gente pensa que num bairro social há mais delinquência do que noutras zonas. Não é verdade. A maior parte das coisas acontecem fora dos bairros, mas nós é que somos conotados como perigosos.

Posso testemunhar que temos aqui pessoas trabalhadoras, estudantes, muita gente de bem. “

Paulo Borges

“Gostava de ser ativista. Hei-de ir ao Parlamento, com umas algemas nas mãos.

Nasci em Portugal, mas não sou português. Os meus pais vieram de Cabo Verde há 40 anos e tiveram de me registar como estrangeiro.

Agora tenho 30 anos, mulher, uma filha de 2 anos e sou gerente de um café. Como estive preso (uma estupidez de juventude), não posso ter a nacionalidade e também não consigo autorização de residência.

No café, aparecem por tudo e por nada. Como não temos dinheiro para advogados e não nos sabemos defender (estamos sempre a ganhar o sustento do dia), a polícia anda sempre em cima de nós e abusam.”

Miguel Nunes

“Eu estava com uns amigos à porta do café. Passou um carro da polícia que parou – creio que por causa de um carro mal-estacionado.

O agente veio logo em direção a mim… “disseste o quê?” e deu-me logo com o cassetete no braço. Depois abordaram-me, deram-me com gás na cara, meteram-me no chão, arrastaram-me uns cinco metros mais para trás, chamaram reforços e levaram-me para a esquadra.

Dentro do carro e na esquadra o agente agrediu-me. Meteu as luvas e deu-me um soco na cara, estando eu algemado. Estive dois dias
detido na esquadra”.

Júlio Fernandes

“Estou no bairro há vinte e tal anos. Já vi muitas situações, com miúdos, confusões com a polícia e acho que muitas vezes a polícia tem razão, mas nesse dia não.

Eu até aí não tinha nada de que me queixar da polícia. Nunca sofri abusos da polícia. Tiveram que me abordar uma vez ou outra, mas há sempre uma lógica ou uma razão, mas nesse dia… São coisas irracionais de se verem.”

Carlos de Almada

“Eu só lhes disse: ‘este é o meu café e eu tenho de estar aqui’. Eles não me responderam.

A um metro de mim, já tinham o bastão preparado para me bater, mesmo na cabeça. E eu defendi-me com esta mão. Outro começou a enfardar e eu defendi-me com a outra mão.

Fiquei com sete parafusos [no braço]. Eu não agredi ninguém! Só estava à porta do meu café...

Não há hipótese de os reconhecer, porque eles vieram tipo ninja, com cara tapada, luvas nas mãos e não falaram com ninguém. Eles são seres humanos como nós. Será que sentem dor? Não... eu tenho impressão que não.”

Felisberto Robalo

“Eu estava lá em casa a jantar e fui comprar cigarros ao café.

Eles vieram de cima [do bairro da Cova da Moura] e já não saí de lá. Eu não tenho nada contra a polícia. Eu estava parado e eles chegaram e deram-me porrada, mais porrada, sem mais sem menos.

Foram os meus vizinhos que chamaram o INEM porque eu fiquei inconsciente. Tenho filhos pequenos e não estou a trabalhar - tenho dores na coluna, tenho dores no braço, tenho a cabeça partida.”

Júlio Diogo

“Depois é que percebi que a minha irmã tinha ligado para a polícia a dizer que eu a estava a ameaçar com uma faca.

Entraram logo à bruta. Só tive tempo de aguentar a pancada e colocar o meu filho – que tinha ao meu colo - em cima do sofá. Um deles deu-me com o cassetete; partiu-me a cabeça em quatro lados.

A minha vizinha apercebeu-se da situação e filmou. Meteram-me no carro e levaram-me para a esquadra. Quando viram que a minha vizinha tinha posto o vídeo no facebook, as coisas mudaram. Começaram a incentivar-me para falar com a minha vizinha para apagar o vídeo.”

Nelson Fossa

“O meu primo não era violento. Nós viemos da Guiné em 2002, apanhámos com a crise da construção civil e ele passou a viver da apanha de ameijoa.

Só sei que, nesse dia, foi abordado por dois polícias à paisana e acabou por ser morto com um tiro na cabeça. Creio que foi abuso porque ele nunca fez mal a ninguém. Sei que tinha tido conflitos com um casal, por causa de um cão, mas não se justificava tirar-lhe a vida.

Ele tinha 50 anos e deixou uma viúva e dois filhos órfãos na Guiné. Ainda por cima, não os deixaram vir fazer o funeral e ninguém sabe onde o enterraram.”

(depoimento do primo João Pereira)

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