Saúde e Bem-estar

Cirurgia inédita: seropositiva doa rim a doente com VIH

Nina Martinez

Facebook Ramiro Esparza

Nina Martinez doou um rim a um paciente com o mesmo problema de saúde, numa cirurgia histórica que aconteceu na segunda-feira.

Os cirurgiões do Hospital Johns Hopkins em Baltimore, Estados Unidos da América, transplantaram um rim de um dador vivo seropositivo para um paciente com o mesmo problema de saúde, um avanço na Medicina que poderá contribuir para o aumento do número de órgãos disponíveis para transplante e ajudar a mudar a perceção das pessoas sobre o VIH.

A dadora, Nina Martinez, de 36 anos, e o recetor, que preferiu o anonimato, estão a recuperar bem no hospital após a cirurgia de segunda-feira, disseram os médicos num comunicado divulgado pelo hospital. Desta forma e, pela primeira vez num ano, o recetor já não precisa de hemodiálise.

O procedimento representa uma evolução no VIH e uma esperança para 1,1 milhões de pessoas portadoras do vírus nos EUA.

Hoje em dia, a medicação pode reduzir a infeção até níveis indetetáveis, mas o estigma ainda permanece.

"A sociedade entende-me a mim e a pessoas como eu, como pessoas que trazem a morte", disse Martinez numa entrevista no sábado antes da operação. "E esta é a melhor maneira de mostrar que pessoas como eu podem trazer vida".

Como contraiu a infeção

Em 1983, Nina e a sua irmã gémea nasceram prematuramente aos seis meses de gestação e desenvolveram anemia. Nina foi levada para um hospital em São Francisco, Califórnia, para uma transfusão de sangue, antes de começarem a serem obrigatórios os testes de rotina ao sangue, e foi aí que adquiriu a infeção.

No entanto, tanto ela como a sua família só tiveram conhecimento de que estava infetada quando fez exames antes de uma cirurgia ao olho, quando tinha 8 anos.

Na altura, foi observada na escola para garantir que ela não era um perigo para a saúde de outras crianças, disse Nina. Mais tarde, soube que um diretor perguntou: "Porque estamos a educá-la com dinheiro público se ela vai morrer?"

Quando um colega de casa descobriu que tinha VIH foi-se embora, deixando os seus pertences para trás, num gesto de repulsa.

Cirurgia inovadora

Na semana passada, Nina Martinez marcou presença numa conferência de imprensa para anunciar a cirurgia, a primeira do tipo. Disse que se sentia bem e que estava ansiosa para começar a treinar para a maratona de fuzileiros navais de outubro, em Washington.

"As pessoas com VIH hoje não podem doar sangue, mas agora são capazes de doar um rim", disse Dorry Segev, professor de cirurgia da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, que liderou a equipa de pesquisa e removeu o rim esquerdo de Martinez.

“Eles têm uma doença que há 30 anos era uma sentença de morte. Hoje, são tão saudáveis que podem dar vida a outra pessoa”, referiu Dorry Segev.

Cirurgia com dadores mortos já tinha sido feita

Os cirurgiões transplantaram 116 órgãos de dadores mortos seropositivos para recetores com VIH desde 2016, quando uma nova lei que passou a permitir a cirurgia entrou em vigor.

Até agora, deixar uma pessoa seropositiva com apenas um rim era considerado muito perigoso porque a infeção e os medicamentos que a controlam aumentam as hipóteses de desenvolver uma doença renal. Mas um estudo realizado em 2017 com 42.000 pessoas, liderado por investigadores de Hopkins mostrou que, para alguns potenciais dadores com VIH, o risco de desenvolver doenças renais graves não é muito maior do que para muitas pessoas que não têm sida, especialmente aquelas que têm comportamentos de risco.

Procedimento cirúrgico e pós-operatório

O órgão de Martinez foi implantado no recetor por uma equipa de cirurgiões. A operação foi realizada por Niraj Desai, professor assistente de cirurgia em Hopkins.

O rim foi implantado próximo à pélvis do recetor através de uma incisão de 15 a 20 centímetros no abdómen, e os rins do recetor não foram removidos, como é prática comum, disse Desai.

Os recetores de rins podem viver mais 20 a 40 anos, disse Segev, sendo que aqueles que recebem rins vivos estão em vantagem perante aqueles que recebem órgãos de doadores falecidos. Após esse período, o recetor necessitaria de outro transplante ou voltaria a fazer hemodiálise, explicou.

Martinez e o destinatário permanecerão em medicação anti-retroviral por tempo indefinido para controlar o VIH. Como podem ter estirpes diferentes do vírus e resistência diferente à medicação para o VIH, os médicos vão acompanhar de perto o recetor nos meses posteriores à transplantação. O recetor também tomará medicamentos para evitar a rejeição de órgãos.

Nina Martinez está com uma saúde física praticamente normal. A sua carga viral é indetetável.

“A sua saúde é excelente. O VIH está bem controlado. O sistema imunológico é essencialmente normal”, disse Christine Durand, professora de medicina na Hopkins e membro da equipa que avaliou Martinez.

Porque decidiu doar o rim

Martinez estava consciente da Lei de Equidade de Políticas de Órgão do VIH, a lei que permite a cirurgia, quando foi aprovada em 2013.

No ano seguinte, assistiu a um episódio da série "Anatomia de Grey", com uma história sobre um transplante de um dador vivo com VIH.

Quando descobriu que um amigo seropositivo precisava de um rim, Martinez contactou Hopkins para se voluntariar para o programa de testes que permitiu que se tornasse na primeira dadora no ensaio clínico. No entanto, o amigo de Martinez acabaria por morrer antes do transplante acontecer.

Esta semana, o que tanto ambicionava acabou por acontecer. Martinez acabou por doar o rim a alguém com quem não tem qualquer laço familiar ou de amizade, mas com quem partilha a condição de viver com o VIH.

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