Saúde e Bem-estar

Violência doméstica pode aumentar o risco de problemas psiquiátricos

Conclusão de um estudo realizado pela Universidade de Birmingham, Reino Unido.

Um estudo realizado pela Universidade de Birmingham, publicado no Jornal Britânico de Psiquiatria, sugere que as mulheres que sobreviveram à violência doméstica estão três vezes mais em risco de desenvolver doenças psiquiátricas graves.

O estudo refere também que as mulheres que já têm um histórico destas doenças são mais propícias a serem vítimas de violência doméstica.

A relação entre os problemas de saúde mental (depressão e ansiedade) e a violência doméstica já havia sido mostrada noutros países, no entanto, ainda não tinha sido realizado um estudo tão extenso e que abordasse também as doenças psiquiátricas graves (Distúrbio de bipolaridade e esquizofrenia).

Investigadores descobriram que as vítimas de violência doméstica têm o dobro de probabilidades de sofrer de ansiedade e o triplo de sofrerem de depressão ou de uma doença psiquiátrica grave, mesmo tendo em conta outros fatores que podem levar ao desenvolvimento destas doenças.

Especialistas consideram que estão a ser desperdiçadas oportunidades de detetar os casos de violência doméstica e de dar apoio às mulheres que estão vulneráveis a estas situações.

Segundo a BBC, os médicos de família consideram-se altamente treinados para identificar estes problemas, no entanto, têm algumas dificuldades devido a estes problemas estarem cada vez mais bem escondidos, facto que se confirma no estudo, que mostra uma grande discrepância entre os casos de violência domestica reportados através dos médicos de família e os dados nacionais (Inglaterra), mostrando um nível muito grande de casos não relatados.

O estudo foi baseado em arquivos médicos, entre 1995 e 2017, que identificaram 18,547 mulheres do Reino Unido vítimas de abusos, e foram comparados com os aquivos de um grupo de controlo de 74,188 mulheres com idades semelhantes que não sofreram de violência doméstica.

Joht Singh Chandan, autor condutor do estudo e professor na Universidade de Birmingham, disse que o peso de uma doença psiquiátrica causada pela violência doméstica no Reino Unido pode ser bem maior do que o que se pensava até aqui.

"Considerando o quão comum é a violência doméstica, é importante compreender quão fortemente estão os dois fatores ligados e considerar se existem oportunidades de melhorar as vidas das mulheres afetadas pela violência."

O estudo defende que é imperativo que o setor público use todos os meios ao seu alcance e aproveite todas as oportunidades possíveis para detetar estes casos precocemente, de forma a garantir que a mulheres em risco recebem o apoio necessário, apoio esse que poderá ser crucial para impedir o desenvolvimento de um problema psiquiátrico.

O estudo conclui que uma em cada quatro mulheres já sofreu de violência doméstica em algum momento da sua vida.

Os investigadores consideraram este quadro como um problema de saúde pública e como um grave problema de saúde psiquiátrica pública.

Uma das mulheres presentes no estudo, está de momento a receber apoio de uma organização que ajuda mulheres e jovens em risco.

Em declarações à BBC, a vítima contou que "a violência doméstica mudou-me profundamente enquanto pessoa. Tenho geralmente problemas em dormir e balanço desenfreadamente entre comer compulsivamente ou não comer de todo. Tenho muito mais dificuldade em confiar nos outros e tento mantê-los, sempre, à distância de um braço da minha pessoa, o que inevitavelmente prejudicou imensas amizade que mantinha e que provavelmente não vou conseguir recuperar".

A violência doméstica em Portugal

Segundo o último relatório sobre a violência doméstica da Associação de Apoio à Vítima (APAV), que abrange o periodo entre 2013 a 2017, foram registados 87.730 crimes desta natureza e, desse número apenas 37.528 vítimas recorreram a processos de apoio da Associação.

Da amostra de vítimas apoiadas pela APAV 85,73% eram mulheres, 13,79% eram homens.

A relação entre as vítimas e o autor/a do crime é:

  • Cônjuge em 33,6% dos casos;
  • Companheiro/a em 15,8% dos casos;
  • Filho/a em 11,5% dos casos;
  • Ex-companheiro/a em 9,6% dos casos;
  • Pai/mãe em 8,6% dos casos;
  • Outras em 20,9% dos casos.

A incidência da violência doméstica varia entre os 26 anos e os 55 anos em 41% dos casos, as vítimas são sobretudo mulheres casadas (34%) e os autores dos crimes são em 85% das situações homens com idades compreendidas entre os 26 e os 55 anos.

Os locais onde os crimes são cometidos são:

  • Residência comum em 64,6% dos casos;
  • Residência da vítima em 13,3% dos casos;
  • Lugar/via pública em 8,4% dos casos;
  • Residência do autor em 4,9% dos casos;
  • Local de trabalho em 2,2% dos casos;
  • Outros locais em 6,6% dos casos.

No estudo é identificada a vitimação continuada como a maioria dos casos, atingindo cerca de 80%, com uma duração média entre os 2 e os 6 anos em 15,1% dos casos.

Informação institucional

Contactos úteis da APAV:

Linha de Apoio à Vítima - 116 006 (Chamada gratuíta - Dias úteis das 09H-21H)

Rede nacional de Apoio à Vítima

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