Saúde e Bem-estar

Ferramenta de ADN "corrige" 89% dos erros genéticos associados a doenças

Fragmento de DNA a ser analisado sob luz Ultravioleta para pesquisa cientifica para determinar a mutação genética num doente com cancro do sangue, em Singapura

Wong Maye-e

Descoberta foi anunciada num artigo científico publicado revista Nature.

Cientistas norte-americanos desenvolveram uma nova técnica de "edição genética". Chama-se "Prime Editing" (edição de qualidade, em português). A tecnologia foi descrita como um "processador de texto genético", capaz de reescrever com precisão o ADN.

A descoberta foi anunciada esta semana na Nature.

Investigação revelou que a tecnologia tem potencial para corrigir 89% das 75 mil variações genéticas associadas a doenças.

Foi testado para corrigir variantes genéticas que causam a anemia falciforme ou a doença de Tay-Sachs.

Cientistas defendem que o método, capaz de editar directamente células humanas, fá-lo de forma "precisa, eficiente e versátil", escreve a BBC.

A descoberta não é inteiramente nova. Em 2017, cientistas chineses conseguiram editara uma sequência de ADN num embrião e eliminaram uma doença genética numa experiência bem sucedida.

Federica Narancio

Era difícil imaginar que, em tão pouco tempo, os cientistas conseguissem desenvolver uma nova ferramenta, capaz de corrigir mutações genéticas, de forma bem mais eficaz, do que a CRISPR. Mas aconteceu.

"Uma das maiores aspirações de quem estuda genética é encontrar uma ferramenta que, com exatidão, consiga alterar o genoma a qualquer momento. Acreditamos que, com a Prime Editing, estamos cada vez mais perto de o conseguir", explicou David Liu, autor do estudo à Scientific American.
"Não conhecemos outra tecnologia de edição de células de mamiferos que ofereça este nível de versatilidade e precisão", acrescentou.

O que é a CRISPR

É uma técnica que permite alterar, apagar ou substituir genes em plantas ou animais, entre eles o Homem.

Na altura, a experiência foi feita em embriões produzidos em laboratório e não implantados.

Os cientistas da Universidade Sun Yat-sen editaram a base genética e corrigiram o erro que dá origem à beta talassémia, doença do sangue.

Visto mais à lupa, na prática, esta técnica de edição genética, a CRISPR-Cas9, usa a enzima Cas9 acoplada a um bocadinho de ARN para conseguir penetrar em células vivas.

Uma ferramenta que permite "cortar e colar" fragmentos de ADN e corrigir erros associados a doenças ou a criação de plantas e frutos mais resistentes às pragas da agricultura.

Mas havia um "mas". A CRISPR-Cas9 atua como uma tesoura que corta a dupla hélice do ADN e isso pode desencadear alterações no genoma, ou seja, efeitos secundários. A sua utilização estará sempre dependente da superação desses efeitos.

Mark Schiefelbein / AP

Revolução chamada Prime Editing

A Prime Editing muda a estratégia de "cortar e colar" para um sistema de processamento de textos, com maior precisão. Na teoria permitirá corrigir 89% das variantes genéticas humanas associadas a doenças.

Como funciona? Em vez de juntar-se a Cas9 a um bocadinho de ARN, a enzima é acoplada à proteína transcriptase reversa que usa uma sequência de ADN-alvo para iniciar a sua edição genética. Depois, um novo tipo de guia, o "pegARN" vai direccionar o "editor de qualidade" para esse local alvo, onde a Cas9 modificada poderá cortar e colar a sequência de ADN.

Os investigadores mostraram que este método consegue corrigir com precisão, variantes genéticas que causam doenças como a anemia falciforme, que tem origem numa mutação que altera a hemoglobina e da doença de Tay-Sachs, uma doença rara e degenerativa que afeta o sistema nervoso central.