Saúde e Bem-estar

Falta de sexo é ou não um problema para a saúde? Depende...

Falta de sexo é ou não um problema para a saúde? Depende...
Dean Mitchell

A questão é antiga mas, sem querer, Elon Musk recuperou-a. A abstinência tem consequências negativas na saúde? Será o sexo uma necessidade básica como dormir, comer ou beber água? A resposta não é linear e "cada humano é um mundo".

"Não faço sexo há séculos". A frase foi dita pelo multimilionário e fundador da Tesla, Elon Musk e levantou um questão relevante: a falta de sexo é ou não um problema para a saúde? A SIC Notícias fez a pergunta à psicóloga e sexóloga, Tânia Graça, e a resposta é: depende. Mas há uma certeza: "ao contrário do que muitas vezes é dito, o sexo não é uma necessidade básica do ser humano”.

E aqui começam os vários 'depende': depende do significado que cada pessoa atribui ao desejo sexual e às razões porque não se está a ter sexo; depende também se estamos a falar de abstinência sexual num casal ou em pessoas solteiras; e depende também da história de vida de cada um e das experiências sexuais anteriores. “Cada humano é um mundo”, sublinha a sexóloga.

Uma pessoa que tenha tido relações sexuais prazerosas poderá estar mais disponível para sentir desejo sexual a fim de repetir a boa sensação que teve. Durante o ato sexual, o hipotálamo liberta uma hormona chamada ocitocina – conhecida como “hormona do amor” – que é responsável pela sensação de bem-estar.

Por outro lado, numa pessoa que tenham tido experiências sexuais traumáticas ou dolorosas “vai acontecer o inverso”: a pessoa acaba por não ter tanto desejo sexual, uma vez que não tem boas memórias de experiências anteriores.

“Tudo depende das idiossincrasias da pessoa”, afirma Tânia Graça. É preciso perceber se se trata de “uma escolha ou não e qual o significado que atribuem a essa abstinência”, se existe “um significado de menorização de si próprio” ou se tem “outro significado completamente diferente”. Se alguém tiver pouca resistência à frustração, pouca capacidade de reagir a impulsos, se liga o sexo à rejeição, isso pode afetar a autoestima, pode desencadear sofrimento e até algum impacto físico - se tenho autoestima em baixo, posso não cuidar tanto de mim.

Num artigo publicado pela plataforma noticiosa brasileira O Globo, a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do programa de estudos em sexualidade da Universidade de São Paulo, alerta que o que é preocupante para a medicina é o “sofrimento” que a abstinência pode causar: “Aqueles que não querem fazer sexo por um determinado período, se não estiverem em sofrimento, não precisam se preocupar. O problema é quando se quer fazer, porém, por inúmeros motivos – como falta de oportunidade, de um local adequado ou de um parceiro – não faz e sente a necessidade. Isso causa um sentimento de vazio, um desejo descontrolado, levando a desfechos negativos”, explica.

O "sofrimento" pode, porém, não ser gerado pela abstinência sexual, mas por outras questões. Tânia Graça dá, como exemplo, o luto associado ao fim da relação que pode ter impacto no desejo sexual e consequências físicas. “Há muitas coisas que podem causar sofrimento psicológico e isso tem impacto na saúde física, não só por causa do sexo”, sublinha.

A questão pode também ser entendida de forma diferente se estivermos a falar de um casal ou de uma pessoa solteira. Perante uma situação de abstinência, o casal pode considerar que não há qualquer tipo de problema ou a falta de atividade sexual pode ter “impactos diferentes não só no indivíduo, como na relação”.

Também uma pessoa solteira pode interpretar a abstinência sexual de diversas formas: por um lado, pode haver quem se sinta confortável com a situação e quem, por outro lado, “queira muito estar numa relação”, associando esta condição a questões de autoestima.

O papel da masturbação também deve ser incluído nesta equação. “Fisicamente falando, se uma pessoa tem um orgasmo, é possível que alivie a parte física. Mas há muitas pessoas – e eu ouço muitas mulheres a dizer isso – que associam a masturbação a um ato solitário, e não tem de ser”, revela Tânia Graça.

Novamente, a questão tem várias perspetivas e, consequentemente, diferentes impactos. Se uma pessoa associa a masturbação a um ato solitário, que acontece por não ter ninguém, pode provocar algum tipo de "sofrimento" ou frustração. Outra pessoa pode também interpretar este ato como uma forma aliviar a necessidade física sem um pensamento negativo associado.

É muito individual, de cada pessoa. Por isso é que me parece que estabelecer uma lógica tão direta entre não ter sexo e mau estar físico e emocional. Não pode ser tão linear porque cada humano é um mundo”.

É importante também referir que existem pessoas assexuais, ou seja, que não sentem atração sexual ou desejo sexual por outras pessoas. A assexualidade é considerada uma orientação sexual – faz parte da sigla LGBTQIA+ - havendo um espetro.

Se alguém que esteja em sofrimento ou com dificuldade em gerir a não existência de atividade sexual, faz sentido que procure alguém da área da psicologia e, se possível, sexologia, para que se possa fazer um trabalho de perceber o que está a acontecer, porque é que essa atividade não tem acontecido, gerir as frustrações”, aconselha a psicóloga Tânia Graça.

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