As Histórias

Madalena, uma mulher mais forte do que a doença oncológica

Madalena Santos deu aulas de lenço na cabeça e partilhou a notícia de que tinha cancro de mama com família e amigos. “Dor partilhada, dor aliviada”, diz.

José Fernandes

Todos os anos, surgem em Portugal cerca de 4500 novos casos de cancro da mama. Apesar de a doença provocar ainda uma média de 1500 mortes por ano, a prevenção e o diagnóstico precoce em paralelo com os benefícios de novas tecnologias e terapêuticas tem contribuído, de forma notável, para o aumento dos sobreviventes deste tipo de cancro.

Madalena Santos, de 65 anos, é uma das mulheres que foi mais forte do que a doença.

Professora (hoje aposentada) suspeitou quando o radiologista que lhe fez uma ecografia mamária recomendou que procurasse o médico ginecologista urgentemente. Assustada, saiu do centro a chorar, conta. “Foi difícil, senti medo.” Depois de acalmar, decidiu ir para a escola dar aulas.

Foi há 23 anos, tinha então 42 anos e dois filhos: uma rapariga, com 11 anos e um rapaz, com oito.

O radiologista não lhe dissera que o tumor era maligno. “Deu-me algum tempo para tirar conclusões”, diz Madalena. O diagnóstico veio confirmar os medos e as suspeitas: era um carcinoma na mama.

Resolveu partilhar a notícia com os colegas, na escola. “As minhas colegas do Conselho Diretivo foram extraordinárias; deram-me imenso apoio durante todo o tempo em que estive doente.” Em casa, informou o marido e, mais tarde, os pais e as irmãs. Aos filhos, teve o cuidado de contar “como se estivesse a falar de uma doença qualquer.”

Para Madalena Santos, era importante divulgar a situação aos familiares e amigos porque “quando partilhamos as notícias más com aqueles de que mais gostamos, sentimo-nos mais aliviados. Como diz o povo: dor partilhada, dor aliviada.”

A seguir aos tratamentos de quimioterapia realizados de três em três semanas no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, Madalena foi submetida a uma cirurgia. Um mês depois reiniciou os tratamentos, mais seis sessões de quimioterapia que duraram cerca de 11 meses.

“Fui muito bem tratada. Os médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar foram extraordinários. Diz-se muito mal do Serviço Nacional de Saúde (e certamente que há muitas lacunas), mas eu só tenho a dizer bem dos serviços médicos e de todas as pessoas que cuidaram de mim”, diz.

Madalena conta que, durante todo o processo, procurou manter as rotinas da sua vida habitual. “Meti na cabeça que havia de ser mais forte do que a doença; ela não me havia de vencer. O meu marido ajudou-me muito.”

O que mais custou foi a queda do cabelo

O que mais lhe custou foi a queda do cabelo. “Foi muito difícil…comprei uma peruca, mas não fui capaz de andar com ela”. Preferiu envolver a cabeça num lenço, às vezes usar chapéu e assim continuou a dar aulas. “Participei em conferências, em reuniões, fui a festas, à 1.ª comunhão do meu filho, à festa das bodas de prata de uma colega…”

De baixa, só esteve após a operação e decidiu voltar ao trabalho passadas três semanas.

O tempo passou depressa, já lá vão 23 anos, mas a vida de Madalena não mudou muito. Manteve as suas rotinas e a sua atividade profissional até se reformar.

Hoje, tem algumas limitações físicas. “Não me posso deitar para o lado esquerdo, para a zona em que foi realizada a cirurgia, nem fazer grandes esforços nesse braço.

Introduziu algumas mudanças na alimentação. “Nunca mais comi nenhum tipo de enchidos e evito comer gorduras e carne, não só por motivos de saúde, mas também por questões ambientais.” E mudou também a forma de estar na vida.

Depois da minha doença, passei a dar mais importância à vida, ao que sou e tenho, à minha família e amigos."

Não pensar “demasiado na doença (hoje a maior parte dos casos de cancro, detetados a tempo, têm cura)”, ter pensamentos positivos, continuar a trabalhar e a manter uma ocupação, passear e procurar um estilo de vida mais saudável, nomeadamente no que respeita à alimentação são alguns dos conselhos que Madalena Santos dá a quem receber um diagnóstico de cancro. “Saboreiem os momentos bons com a família e amigos e apoiem-se neles. Dediquem-se aos outros, se possível. Se forem crentes, rezem. Quando entregamos a Deus os nossos medos sentimo-nos mais aliviados. Está provado que a Fé nos torna mais fortes e ajuda-nos a enfrentar as doenças e os problemas. A mim, ajudou-me muito”, acrescenta. E sublinha, confiante: “Tudo passa. É preciso viver os problemas com confiança e continuar a lutar; Penso que, tudo isto ajuda muito no processo de cura.”

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