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Deixar tudo para ter acesso à saúde

Cancro: O aumento de doentes tem posto à prova as instituições, e o tratamento é mais difícil para quem mora longe dos grandes centros.

José Fernandes

Hildebranda e António Matias emocionam-se ao recordar o momento em que, em abril, os neurocirurgiões do Hospital da Estefânia, em Lisboa, lhes anunciaram a doença do filho Santiago, de apenas cinco anos. Perante diagnóstico tão brutal - tumor na medula cervical –, a dor e a revolta implodiram no coração de mãe: “A primeira coisa em que pensei foi que ia ficar sem ele. Nenhuma criança merece passar por isto”. De um dia para o outro, a vida da família Matias ficou virada do avesso. A criança foi reencaminhada para o IPO de Lisboa e os pais, naturais de Coruche, tiveram de mudar-se para a capital, onde o aluguer de um quarto custa muito acima das possibilidades do casal. A solução que encontraram foi separar-se durante a noite: Hildebranda passou a dormir no hospital com o filho, enquanto o marido pernoitava no carro. “Só me interessava estar perto”, conta António. “Assim que me era permitido entrar no hospital, entrava, e passava o dia com a minha família”. António Matias dormiu no carro durante algumas semanas, até que um grupo de jovens que já superou o cancro e hoje se dedica ao voluntariado (os chamados “Barnabés”), tomou conhecimento da situação e pediu a intervenção da Acreditar (Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro) que lhes arranjou um quarto em Lisboa. Hildebranda e António passam os dias entre o quarto e o IPO. Exceto aos fins de semana, quando vão a Coruche para estar com a outra filha, uma adolescente de 14 anos entregue aos cuidados dos avós.

A história da família Matias é uma entre tantas outras histórias de famílias de doentes obrigadas a deixar tudo para conseguirem aceder aos tratamentos oncológicos nas grandes cidades. Em muitas situações são as associações de doentes que resolvem este tipo de problemas, acrescentando complementaridade aos serviços públicos no acesso aos cuidados de saúde. Além de acolherem doentes e famílias, prestam apoio jurídico e financeiro, assegurando também, quando é necessário, o transporte dos doentes até aos centros de tratamento. Segundo explica Margarida Cruz, Diretora Geral da Acreditar, a associação “tem procurado acompanhar no terreno as dificuldades dos hospitais e dos profissionais de saúde e, sempre que pode, tem tomado medidas que permitem melhorar as condições nos internamentos, com o voluntariado ou com aquisição de equipamento, para que a prestação de cuidados possa ser mais humana e com melhores condições”.

Os doentes estão isentos de taxas moderadoras para tratamentos contra o cancro e consultas, caso lhes tenha sido atribuído um grau de incapacidade igual ou superior a 60%. No entanto, há sempre despesas e custos que o Serviço Nacional de Saúde não cobre.

No IPO de Lisboa, por exemplo, o transporte é assegurado gratuitamente para tratamentos e consultas, acessível a qualquer doente, independente do seu grau de incapacidade. No entanto, no que toca a alguns medicamentos, a comparticipação pode depender dos rendimentos do doente: “Há medicamentos que são dados de forma gratuita na farmácia hospitalar (quimioterapia, corticóides, entre outros), e outros que têm de ser suportados pelo doente”, informa Luísa Almeida, assistente social no IPO de Lisboa.

A Liga Portuguesa Contra o Cancro estabeleceu acordos com algumas farmácias e consegue que os medicamentos mais dispendiosos possam ser dados aos doentes oncológicos mediante uma avaliação prévia de uma assistente social. “O nosso objetivo não é substituir o Estado, no que aos apoios sociais diz respeito, mas sim minorar as dificuldades dos doentes”, afirma o Presidente da Liga, Vítor Rodrigues.

Escassez de recursos

Com o aumento crescente de pessoas com cancro, as instituições revelam algumas dificuldades. Margarida Cruz, Diretora Geral da Acreditar, explica que “os equipamentos estão desatualizados” e que a falta de registos fidedignos “tem um impacto enorme” no acesso ao conhecimento, na participação de Portugal em protocolos e na investigação.

Para Isabel Galriça Neto, médica de cuidados paliativos no Hospital da Luz, é necessário padronizar os cuidados de saúde: “Um doente de Trás-os-Montes ou do Alentejo deve ter direito aos mesmos cuidados de saúde que se praticam noutros locais do país.” Recorda que os bons tratamentos existem, mas a inovação não está ao alcance de todos: “Há muitos equipamentos obsoletos e, no cancro, os exames de imagem são muito importantes e podem ser determinantes. Não é o mesmo fazer um exame com um aparelho de última geração ou com um muito antigo. Isso cria injustiças e iniquidade. Devemos projetar as instituições de saúde para a doença crónica, em vez de as projetarmos para a doença aguda”, uma vez que os doentes crónicos cada vez são mais.

A falta de recursos humanos é outro dos problemas identificados pelas instituições. “Embora eu sempre tenha sentido que confiam em nós, devido à falta de recursos humanos, falta de tempo e algum cansaço acumulado, nós médicos trabalhamos muitos dias no limite e tudo isto pode gerar alguns mal entendidos que, por sua vez, podem gerar alguma desconfiança nos doentes relativamente aos especialistas”, sublinha Catarina Rodrigues dos Santos, cirurgiã geral dedicada à patologia mamária no IPO de Lisboa.

A falta de meios tem implicações nos tempos de espera para consultas e cirurgias. Segundo o último relatório publicado pela ERS (Entidade Reguladora da Saúde), em maio, que contempla dados de cerca de quarenta hospitais do SNS, 18% das cirurgias oncológicas foram realizadas depois dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG), que representam os tempos de espera clinicamente aceitáveis. Cerca de 30% das cirurgias consideradas "muito prioritárias" foram feitas além dos tempos máximos de resposta. Nas cirurgias oncológicas de prioridade normal o incumprimento chegou aos 16% e nas prioritárias aos 17%.

Quanto à percentagem de incumprimento global dos TMRG em consultas de oncologia, o número de doentes em lista de espera foi de 1.335 e, para os doentes que foram atendidos, houve um incumprimento geral de 36% em todas as consultas.

Textos originalmente publicados no Expresso de 17 de agosto de 2019

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