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A dança dos cadeirões da ‘quimio’

Projetos Expresso. Terapia. Lucília fez uma mastectomia parcial, Luís ficou com um cateter no corpo e Fátima quase deixou de falar depois da cirurgia. Mas os tratamentos do cancro estão cada vez mais evoluídos

José Fernandes

André Rito

A sala tinha perto de 40 metros quadrados e oito cadeirões para os doentes. Lucília Perdigão, 50 anos, funcionária pública, entrava pela primeira vez numa unidade de tratamento por quimioterapia. Tinha- -lhe sido diagnosticado um cancro da mama três meses antes, que a obrigara a “uma saga de exames” — biópsias, TAC, ressonâncias magnéticas, mamografias, ecografias —, e culminou com uma mastectomia parcial. A ‘químio’, como abreviam os doentes, não estava nos planos dos médicos, mas o tumor revelou-se “mais agressivo”. “Fiquei assustada quando soube que ia continuar com um tratamento. Mas tinha de ir, não queria ficar com a decisão de não ter feito tudo ao meu alcance para me tratar”, conta. A quimioterapia é um dos métodos mais utilizados no tratamento do cancro. Carrega o peso e o estigma dos efeitos secundários, mas a sua eficácia está comprovada. Lucília sabia o que a esperava: semanas antes recebera um folheto com as informações sobre o tratamento e efeitos secundários, além de tudo o que ouviu dos médicos durante as consultas que antecederam os seis ciclos de quimioterapia. “Fazia sessões de duas horas e meia em ciclos de 15 dias. Por duas vezes tive de adiar o tratamento porque tinha as defesas muito em baixo e não podia avançar para o ciclo seguinte.”

Cada sessão era antecedida de uma bateria de exames para avaliar o sistema imunitário. Aos poucos, os meses foram-se moldando aos tempos da quimioterapia, assim como o seu estado de espírito e força física. “Na primeira vez não senti quase nada, tirando algum cansaço ao fim do dia e a boca seca. Os quatro ou cinco dias seguintes foram piores e foi quase sempre assim ao longo de todos os ciclos. A primeira semana era dura, com muitas dores musculares e nas articulações, depois começava a recuperar”, recorda. Quando estava quase livre dos efeitos secundários, era tempo de voltar para nova sessão. Lucília tinha feito o seu diagnóstico em casa, acidentalmente, ao descobrir um nódulo no peito. Mas foi durante uma consulta de renovação da baixa médica — em virtude de um acidente — que a médica lhe pediu exames “sem dar a entender”. Com o resultado nas mãos ao fim de um mês, entregou-os à médica de família, que apenas lhe disse: “Temos de acelerar. “Fiquei meio anestesiada”, diz. Tendo em conta o sítio e a dimensão do tumor, achou que não havia dúvidas de que “seria para operar”.

Durante os tratamentos, apesar dos efeitos visíveis da medicação, nunca vacilou: não gostava de se ver ao espelho mas maquilhava-se antes de ir para o hospital e vestia um turbante para disfarçar a falta de cabelo. Só assumiu a careca ao fim de algum tempo, porque o filho lhe pediu. “O que me fez mais falta até foram as pestanas e as sobrancelhas, que deixam o rosto sem expressão”, completa Lucília, cujos tratamentos incluíram ainda 32 sessões de radioterapia, cinco dias por semana, cinco minutos por dia. Com a doença atualmente controlada, faz exames de vigilância e mantém alguma medicação, por se tratar de cancro hormonodependente. A pandemia acabou por alterar as consultas de vigilância.

O doente do cadeirão nº 4

Foi também o que aconteceu com Nuno Soares, 34 anos, responsável de clientes numa seguradora. Esta semana passam dois anos desde que foi diagnosticado com um cancro testicular, que implicou cirurgia e quimioterapia. Com a covid-19, viu a cirurgia de remoção do cateter ser adiada, um procedimento que lhe causava “ansiedade”, por considerar ser “o último passo da remissão e da cura. Emocionalmente, precisava disso”. Era o doente do “cadeirão nº 4. Calhou-me sempre o mesmo. O ambiente era silencioso, as pessoas não falavam muito, não há muito para dizer. São doentes a tentar curar-se, todos com o mesmo olhar, compenetrados na sua cura ”, conta a propósito do local onde fez o tratamento. Numa ala com cinco divisões, cada uma com seis cadeirões, perto de 50 utentes iam fazendo sessões de quimioterapia e dando lugar a outros doentes. Também aqui se refletem as estatísticas do cancro, cujas estimativas em Portugal apontam para 25 casos em cada 100 pessoas. “Na minha divisão estavam os lugares todos preenchidos”, resume.

O caso de Luís, cuja doença foi diagnosticada em 2018, foi considerado pelos médicos “de simples tratamento, com 95% de hipóteses de sobrevivência”. Tinha sido o próprio a detetar “uma massa” e a perceber que estava doente. “O corpo diz-nos. Não sei explicar, era uma sensação de que alguma coisa não estava certa.” De facto, não estava: depois de uma série de exames, o diagnóstico revelou um cancro que levou à remoção de um testículo e a algumas sessões de quimioterapia, devido à dimensão do tumor. “Se tivesse ido ao médico um mês antes, o mais provável era não ter precisado de quimioterapia”, acredita Luís, que viveu o processo de forma “recolhida”. Quando soube do diagnóstico, não foi capaz de o partilhar com o companheiro com quem vive. “Custou-me a processar”, desabafa. Pior do que isso foram os efeitos secundários do tratamento. Ansioso, com medo e nervoso, entrou pela primeira vez na sala de tratamento e saiu de lá como quem acaba de correr meia maratona. “Estava muito cansado. A sensação foi de ter estado a fazer muito exercício. Na segunda foi pior, senti-me nauseado e enjoado, a enfermeira reduziu um pouco a dosagem por hora e acabei por sair quase em ombros”, recorda ao Expresso, dizendo que a doença o tornou “mais otimista”. Em outubro do ano passado, o médico mandou-o festejar, tinha os valores normais. “Fui comer sushi, tinha estado numa dieta rigorosa, fui comer todas as coisas que não pude.”

“Ainda vou a tempo?”

Era apenas uma aparente borbulha interior. Aos 42 anos, acabada de ser mãe, a amamentar, Fátima Oliveira apercebeu-se de um “pequeno carocinho” no pescoço. Fez uma ecografia inconclusiva, porque as glândulas parótidas eram demasiado largas e os médicos não conseguiram visualizar o corpo estranho e avançaram para uma punção, e dois anos depois para uma cirurgia maxilofacial. Quando foi tirar os 35 pontos, mal conseguia abrir a boca. “Mal falava”, relata Fátima, hoje com 56 anos. Nessa altura, o diagnóstico não apontara para cancro, mas alguma coisa grave se passava. Recebida em diferentes hospitais, públicos e privados, fez todo o tipo de exames — de ressonâncias magnéticas a biópsias e ecografias —, até que uma técnica hospitalar lhe solicitou os relatórios da cirurgia. No dia seguinte, numa consulta no privado, o médico viu finalmente o processo completo. “Quer-me contar mais alguma coisa? Vai amanhã para o IPO, não vai trabalhar”, sentenciou o clínico. “Só consegui perguntar se ainda ia a tempo. Ele respondeu: ‘vai, se for já’.” Diagnóstico: carcinoma maligno na parótida. Fátima fez três meses de radioterapia, sem interrupções. “Parei uma vez para libertar a máquina. Fiz o máximo que o corpo aguenta.” Os resultados foram visíveis aos primeiros dias: saía de lá sem dores. Tomou complexos vitamínicos para fortalecer o corpo e resistir à radioterapia. No fim do tratamento começou a emagrecer até perder mais de 40 quilos. Hoje continua a ser seguida no IPO, com uma ressonância magnética anual. Sobrou uma cicatriz dos tempos mais duros. “Três centímetros. Não há milagres.”

A Europa e nós

25%
é a percentagem de mortes por doença oncológica na UE. Em Portugal, 24,6% das mortes em 2018 tiveram origem no cancro

50
mil foi o número de novos casos de cancro em Portugal em 2018. Os mais frequentes são os tumores colorretal, da mama e da próstata

Tratamentos e terapias

Quimioterapia É um dos tratamentos utilizados em grande parte dos tumores. Recorre a fármacos orais ou intravenosos, afetando células tumorais mas também as saudáveis, causando efeitos secundários, como queda de cabelo, cansaço, hematomas, falta de apetite, náuseas, entre outros. São quase sempre reversíveis e temporários. Este tratamento é muitas vezes combinado com outros, como radioterapia, imunoterapia ou terapêutica hormonal.

Cirurgia É a forma de terapia mais antiga contra o cancro, utilizada para verificar o tipo de tumor e eventual disseminação, mas também para restabelecer a função do corpo que foi danificado pela sua presença, extraindo o tecido canceroso em parte ou na totalidade. Em muitos casos, à operação seguem-se outros tratamentos — como quimioterapia e radioterapia.  

Doença crónica Sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo, o estudo e a evolução científica no tratamento do cancro tem permitido aumentar a sobrevida dos doentes. Por essa razão passou a ser classificada como doença crónica, à semelhança da diabetes ou das leucemias crónicas.

Textos originalmente publicados no Expresso de 6 de junho de 2020

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