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A doença em que o tempo é vida

Oncologia. Recuperar a confiança dos doentes, repensar infraestruturas e retomar os rastreios são algumas das prioridades de um sector que, apesar da pandemia, nunca parou por completo

A pandemia agravou os tempos de espera nas cirurgias, ao passo que as consultas foram menos lesadas

José Fernandes

Em 2018, Maria do Céu Semedo foi diagnosticada com mieloma múltiplo. Consciente de que adiar o processo poderia trazer danos irrecuperáveis, a doente partiu de imediato para o tratamento. Fez oito ciclos de quimioterapia, entre 2018 e 2019, e, em março deste ano, quando o mundo caiu num cenário eminente de medo e incerteza provocado pela pandemia, Maria do Céu recebeu a notícia de que iria, finalmente, dar o último grande passo para a cura que tanto ansiava. “Soube que ia fazer o transplante, em pleno estado de emergência. Honestamente, não tive receio acrescido. Mentiria se dissesse que não me sinto segura no IPO do Porto onde sou, e sempre fui, muito bem seguida”, explica. O marido acompanhou-a até à entrada do edifício, onde foram feitas as despedidas. Pela frente estaria um hiato, uma ausência de proximidade física, que duraria cerca de um mês. Durante esse período - de 26 de março a 17 de abril - só viu a família por videochamada. “Não me custou, eu sabia que era um mal necessário”, confessa Maria do Céu. Hoje, já em casa, a cumprir com todos os cuidados que lhe são impostos devido à sua condição e aos tempos que vivemos, tem a certeza de que tomou a decisão certa. “Sei que se não tivesse feito o transplante o desfecho teria sido outro. Peço aos doentes que não tenham medo, os profissionais e as instituições sabem o que fazem”.

Os especialistas acreditam que o aumento de novos casos de Covid-19 tem alimentado o receio dos doentes na hora de se dirigirem aos centros médicos. Inverter esta tendência foi uma das prioridades apontadas pelo secretário de Estado da Saúde, António Sales, por especialistas e associações de doentes no último debate realizado pelo “Tenho Cancro. E depois?”, dedicado a definir uma estratégia para o regresso à normalidade dos serviços oncológicos. “Em saúde pública não há risco zero, mas é importante dizer que os doentes com cancro não podem atrasar os seus diagnósticos e tratamentos”, sublinha António Sales. “Alguém que esteja com sintomas e não se queira dirigir as centros médicos está a agravar o seu prognóstico”, lembra Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama da Fundação Champalimaud.

A norma nº009, implementada pela DGS, garantiu circuitos próprios aos doentes oncológicos, assim como a sua testagem sistemática. “Em oncologia, o SNS tem que funcionar a todo o vapor porque sabemos que, no cancro, não há tempo a perder”, diz José Dinis, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas e um dos responsáveis pela elaboração da norma.

Retomar rastreios e exames complementares

Uma boa prevenção secundária - onde os rastreios se incluem - é um dos fatores que dita o sucesso de um diagnóstico precoce. Com a pandemia, os rastreios foram interrompidos e os processos de estadiamento atrasados. Os primeiros sinais de retoma já apareceram: No Alentejo, a maior parte dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) retomaram a atividade de rastreios no dia 8 de junho, assim como os ACES da Região Centro. “No caso do rastreio do cancro da mama, posso afirmar que a retoma já se iniciou, mas ainda estamos longe de uma recuperação. Começámos com cerca de 20% de capacidade”, explica Vítor Rodrigues, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC). O especialista chama ainda a atenção para a elevada probabilidade de que, daqui a uns meses, haja dois tipos de diagnósticos que poderão sobrepor-se: os doentes diagnosticados precocemente e os doentes diagnosticados após a situação de recuperação dos rastreios em atraso. “Haverá um stresse adicional que recairá sobre o sistema de saúde. Temos que nos preparar para esse cenário”, alerta o presidente da LPCC.

No que toca aos exames complementares de diagnóstico - indispensáveis para avaliar o doente e estadiar a doença - as listas de espera são agora maiores do que nunca. “A colaboração entre o SNS e o setor privado é crucial, já que existem recursos no setor privado que podem ajudar a recuperar o atraso nesta vertente da oncologia”, lembra Fátima Cardoso.

Reforçar recursos humanos e infraestruturas

Há quem coloque a tónica na contratação de recursos humanos, recursos estes que já escasseavam antes do aparecimento da pandemia. Para minimizar esta lacuna o governo contratou, em contexto de Covid-19, cerca de 3 mil profissionais de saúde, alguns na área da oncologia, sendo que estão previstas mais contratações para além destas. Todavia, Luís Costa defende que é preciso ir mais além: “Não basta abrir vagas, há que definir a função e o papel da pessoa contratada. Creio que devemos implementar uma política de contratação de recursos humanos por objetivos”, sugere o diretor do serviço de oncologia do Hospital de Santa Maria. Reorganizar as salas de espera e espaços usados pelos doentes é, também, uma prioridade para Luís Costa. “As nossas salas de espera não estão preparadas para cumprir as regras de distanciamento social impostas. Precisamos de repensar estes espaços”, diz o oncologista.

Articulação com os cuidados de saúde primários

Durante o mês de março muitas destas unidades estiveram fechadas, atrasando os diagnósticos nas pessoas que já apresentavam sintomas. As consequências que este fecho provocou evidenciou a importância dos cuidados de saúde primários para a oncologia. “Podemos estar a falar de cerca de 15 mil novos doentes oncológicos que estão por diagnosticar durante os meses mais fortes de pandemia”, diz Rui Nogueira, presidente da APMGF. “Temos que valorizar a relação médico-doente. Reforçar a medicina de proximidade é muito importante no caso dos doentes com cancro, para que estes possam ter alta mais cedo dos serviços oncológicos e nós os possamos seguir”, refere Rui Nogueira.

A oncologia nacional está empenhada na recuperação do seu funcionamento, de forma a mitigar os efeitos negativos que a pandemia trouxe, e cujo impacto real ainda não é possível aferir.

DE JANEIRO A MAIO

23,5%

Menos cirurgias muito prioritárias do que no período homólogo de 2019

24,3%

Menos cirurgias de prioridade normal do que no período homólogo de 2019

0,5%

Mais consultas do que no período homólogo de 2019 e mais 5,2% em primeiras consultas

Textos originalmente publicados no Expresso de 4 de julho de 2020

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