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Cancro da bexiga e Covid-19: Doentes têm nova ferramenta para vigiar os tumores sem saírem de casa

Investigadores portugueses desenvolvem produto único no mundo que permite aos doentes com cancro da bexiga aumentarem a sua qualidade de vida

André Caldeira lembra-se, como se fosse hoje, de quando se apercebeu de que, em Portugal, uma descoberta revolucionária para os doentes com cancro da bexiga tinha sido feita. Filho de pai com cancro da bexiga, um tumor que aparece mais frequentemente em homens fumadores a partir dos 60 anos, André Caldeira sabia, naturalmente, os constrangimentos e problemas pelos quais o seu progenitor passava no seu dia-a-dia.

O interesse do próprio pai e do filho, em melhorar a vida de todos estes doentes, materializou-se quando uma equipa de investigadores do Ipatimup e do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) desenvolveu um teste único no mundo para detecção de recidiva do cancro da bexiga, uma nova arma de vigilância dos doentes com este tipo de cancro. Desde então, André e o pai têm-se dedicado a divulgar comercialmente o produto.

“Este método baseia-se num ensaio ultra-sensível para detectar na urina quantidades vestigiais de mutações genéticas associadas às fases iniciais do cancro da bexiga”, como explica Rui Batista, investigador e responsável técnico do produto.

O método convencional para vigiar esta população, baseado na cistoscopia com citologia urinária, tem sido considerado desconfortável pelos doentes, por implicar a utilização de uma sonda endoscópica através da uretra para visualizar internamente a bexiga e por ter de ser realizado repetidamente, em intervalos que podem ir de 3 meses a 1 ano, durante toda a vida do doente. Quanto aos urologistas, defrontam-se muitas vezes com a necessidade de usar um teste auxiliar com maior sensibilidade e acuidade diagnóstica que a citologia urinária, principalmente nos tumores de estadios mais baixos.

O teste, patenteado internacionalmente e registado com a marca Uromonitor®, propriedade da empresa U-Monitor Lda, cujos fundadores são Rui Batista, Hugo Prazeres, João Vinagre e Paula Soares, representa, assim, uma forma não-invasiva de monitorizar o aparecimento destes tumores, já que é realizado a partir de uma amostra de urina do doente.

No seu trajeto para o mercado o carácter inovador do projeto foi distinguido em prémios de inovação a nível Nacional (Novo Banco Inovação 2016 – Setor da Saúde) e Internacional (Fundação Everis, 2015). A equipa que desenvolveu este teste trabalha no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto - IPATIMUP e no i3S (Instituto de Investigação e Inovação), num grupo liderado pela Doutora Paula Soares.

Kit para fazer vigilância em casa

O produto já estava no mercado há uns anos, mas com as limitações que a Covid-19 trouxe às nossas vidas, a empresa portuguesa decidiu fazer uma adaptação do produto já existente: Um kit - que permite a fazer a recolha e filtração de urina em casa, sem necessidade de haver deslocação ao hospital- que mantém os doentes vigiados, com o maior conforto possível.

De recordar que o método convencional, baseado na cistoscopia com citologia urinária, tem sido adiado pelos doentes, por implicar a deslocação aos hospitais, que têm receio de contágio pela Covid-19, no entanto, os doentes têm de manter uma vigilância apertada e rigorosa, já que estes tumores voltam a aparecer em 70% das pessoas.

Para além das vantagens para os doentes e especialistas, este método mostrou ser muito menos dispendioso para o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Se for doente de cancro da bexiga e estiver interessado em fazer este teste, deve falar primeiro com o seu médico e, à posteriori, consultar o site para saber como deve proceder para receber o kit no seu domicílio.

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