Vida

A “caçadora de meteoritos” portuguesa em entrevista à SIC Online

Vera Assis Fernandes é uma cientista portuguesa que trabalhou nos Estados Unidos na área da geologia lunar. Terminou recentemente a sua última “caça aos meteoritos” na gélida Antárctida. A SIC Online entrevistou-a via e-mail.

Vera Assis Fernandes com um dos meteoritos obtidos na expedição

Vera Assis Fernandes com um dos meteoritos obtidos na expedição

Porque é que vão para a Antárctida à procura de meteoritos? Eles não caem em qualquer sítio na Terra?



Sim, os meteoritos caem com a mesma frequência em todo planeta Terra. No entanto, o continente Antárctico oferece condições ambientais e planetárias sem igual ao resto do globo terrestre que permitem uma maior preservação e concentraçao destas amostras celestiais.



Assim, relativamente à busca sistemática de meteoritos na Antárctida, a grande concentração de rochas de planetas existentes e extintos vindos de sítios para além da Terra, é devida às condições climatéricas deste continente austral. A Antárctida, apesar de todo o gelo que tem acumulado nas últimas dezenas de milhões de anos, apresenta a menor queda de precipitação da Terra (menos que no deserto do Saara), para além de no seu interior não existir de água em estado líquido (rios, ribeiras) que poderia causar muita erosão (física e química) nos meteoritos que ai se encontram.



Portanto, apesar do fluxo de queda de meteoritos ser o mesmo em todo o globo, aqueles que caem no continente gelado, permanecem no gelo e o seu número aumenta comparativamente a outros locais na Terra (ex. Portugal, Deserto do Saara, Américas, Austrália, etc.) .



O que encontraram nesta expedição?



A temporada de recolha de meteoritos 2009-10 (de 3 de Dezembro de 2009 a 26 Janeiro de 2010) obteve no total 1010 meteoritos representando todas ou quase todas as variedades conhecidas: lunares, marcianos, cintura de asteróides, angritos, palassitos, diogenitos, etc. Foi uma das temporadas da ANSMET de maior sucesso desde 1976 não só em quantidade, mas também em qualidade e tamanho dos espécimens.



Como se encontra um meteorito?



A caça de meteoritos na Antárctida faz-se normalmente de motas de neve (Skidoos), estas são posicionadas ao lado umas das outras com intervalos de cerca de 10 metros, e percorrem-se distâncias de vários quilómetros a 3-5 km/h. É através de uma observação atenta e treinada que se detectam no gelo estas amostras do Sistema Solar: procuram-se rochas com crosta de fusão ou com uma textura diferente das rochas locais.



Os dias são normalmente de 8-10 horas. É claro, se estiver muito frio (-40ºC ou menos ou vento muito forte) os dias são mais curtos.



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Como é que podem dizer se um meteorito veio da Lua ou de Marte? Só após análise ou sabem-no no terreno?



Em princípio as análises laboratoriais são o "teste" final sobre a origem do meteorito. No entanto, devido a já haver conhecimento prévio de outros meteoritos lunares e marcianos, podemos especular sobre a possível proveniência de alguns meteoritos no terreno.



Para que serve o estudo dos meteoritos?



Meteoritos são amostras de outros planetas ou resto da matéria-prima do Sistema Solar que se aglomerou e formou os diversos planetas que existem presentemente e outros que já desapareceram. Meteoritos são materiais cósmicos necessários para que se consiga obter informação indispensável para que melhor conheçamos o nosso Sistema Solar e os seus planetas e a evolução destes durante os 4567 milhões de anos que passaram desde a formação do Sistema Solar. Apenas uns meros miligramas são suficientes para obter a idade, composição mineralógica, química e isotópica. Com estes dados fazem-se gráficos e comparam-se com outros meteoritos já estudados. As semelhanças ou diferenças encontradas ajudam cientistas de todo o mundo (e todos nós) a melhor compreendermos de onde somos e como aqui chegámos.



Para onde vão agora o meteoritos que encontraram? A Vera vai prosseguir o estudo?



Os meteoritos saem da Antárctida (Estação de McMurdo) de barco dentro de câmaras frigoríficas e são levados até ao porto de Long Beach, na Califórnia, onde depois são metidos num camião frigorífico até ao centro da NASA-Johnson Space Center em Houston, Texas, onde serão submetidos a um conjunto de investigações para caracterização preliminar.



Os cientistas internacionais em instituições credíveis podem aceder a estas rochas celestiais a partir de apresentação de uma proposta de investigação no meteorito pretendido, com descrição das técnicas analíticas que serão usadas e a explicação da finalidade do estudo.



Se houver algum(ns) meteorito(s) que me interessem - que tenho quase a total certeza que há - terei a oportunidade de requisitar material - mas não é por ter participado na ANSMET que estou à frente da lista de investigadores.



Como acabou a "caçar" meteoritos? Era um "sonho de infância ou foi no decurso do percurso profissional?



Foi no decurso do percurso profissional. Soube deste projecto e falei com pessoas que tinham participado na ANSMET as quais me informaram quem era a pessoa que eu deveria contactar. Vai-se em regime voluntário, ou seja, não se recebe salário (vai-se por amor à ciência e pela experiência), mas os custos envolvidos com a viagem (voos, alojamento e alimentação) são pagos pelo projecto ANSMET graças a fundos da National Science Foundation (NSF) e NASA. A lista de espera de voluntários/as é grande.



Para a minha primeira participação em 2004-05, eu esperei quase cinco anos, e todos os anos tinha que enviar uma carta por correio normal a expôr o meu interesse em participar no projecto. Desta vez, como sou considerada "veterana", não tive que esperar.



Já analisou alguma amostra trazida para Terra pela NASA?



Sim. No mestrado fiz trabalho com amostras obtidas durante a missão Apollo 14, e mais recentemente em Berkeley, California, E.U.A., em amostras trazidas pelas missões Apollo 16 e 17. É preciso não esquecer as três missões soviéticas, Luna 16, 20 e 21 que também trouxeram amostras da Lua. Também já trabalhei com amostras destas missões.



Calculo que em Portugal esta área não seja desenvolvida. O seu futuro passará sempre pelos EUA?



Não propriamente. Fiz o meu doutoramento em Inglaterra e, de 2003-2007, tentei inserir-me em Portugal, mas infelizmente não tive as condições suficientes para fazer o meu trabalho e, portanto, com muita pena minha, tive de me ir embora.



As condições não são só equipamentos mas, no meu caso, foram sobretudo condições humanas de trabalho. Portugal poderia ter esta área de investigação a desenvolver de momento se fosse dado espaço na política de investigação científica. Se houvesse uma aposta no investimento em investigação num maior número de áreas e não a presente grande concentração numa ou duas áreas. Se houvesse uma visão no planeamento a longo prazo daqueles que decidem ciência no país. Se a FCT realmente tivesse (como consta no Estatuto de bolseiro) um/a representante em cada instituição universitária para dar apoio logístico às/aos investigadores em Portugal para facilitar as sua própria burocracia e a Europeia, de modo a ser mais fácil e célere concorrer-se a fundos (ex. o Programa Marie Curie da UE, que em Portugal conta apenas com uma pessoa com a responsabilidade para todo o país). Por exemplo, no Reino Unido e Alemanha cada Universidade, e mesmo nalguns departamentos, há pelo menos uma pessoa a ajudar nesse âmbito.



É o investimento em alguns salários, mas que traria milhões para investigação em Portugal. Só assim se consegue obter grandes fundos para remodelação e actualização dos laboratórios portugueses (uma visão a médio-longo prazo). É assim que os britânicos e alemães fazem e por isso conseguem ter laboratórios de ponta em várias áreas de investigação!



E, finalmente, menos economistas a darem palpites às autoridades competentes sobre o crescimento científico do país através de estudos que nos reduzem a números e definem o que é economicamente interessante de momento que, mais uma vez, reflectem uma visão de curto prazo. Finalmente, uma remodelação das universidades portuguesas para darem espaço à nova geração de investigadores - que, na maioria, foi para fora de Portugal fazer doutoramentos com fundos da FCT, mas que não consegue voltar - investimento nacional perdido para outros países.