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Livros: "O arenque fumado" é um peixe e um poema ilustrado por André da Loba para a Bruaá

Lisboa, 02 jan (Lusa) - Parece um peixe, não tem páginas, mas é um livro, com um poema centenário francês ilustrado por um português do século XXI. A editora Bruaá fechou 2010 com "O arenque fumado", de Charles Cros e André da Loba.

Lisboa, 02 jan (Lusa) - Parece um peixe, não tem páginas, mas é um livro, com um poema centenário francês ilustrado por um português do século XXI. A editora Bruaá fechou 2010 com "O arenque fumado", de Charles Cros e André da Loba.

O livro-objeto, destinado a públicos de todas as idades, assinala a abertura da editora Bruaá a ilustradores portugueses, porque até aqui todos os oito livros editados são de autores estrangeiros.

A estreia na ilustração portuguesa dá-se com André da Loba, nascido em Aveiro em 1979 e com apenas quatro anos de trabalho editorial, que deu vida ao texto "O arenque fumado", um poema do autor e inventor francês Charles Cros, publicado em 1872 primeiro em prosa e depois em verso.

"Somos admiradores do trabalho dele [de André da Loba] e para o que queríamos com este texto não havia grandes escolhas em Portugal. Ele tinha o traço ideal", disse o editor Miguel Gouveia à agência Lusa.

"O arenque fumado" tem a forma recortada de um peixe, cujo corpo se desdobra e desvenda, numa das faces, o poema de Charles Cros e na outra uma sugestão do humorista Coquelin Cadet (1848-1909) de como o texto deve ser lido em voz alta.

André da Loba, atualmente a viver em Nova Iorque, afirmou à agência Lusa que entrou no projeto "cheio de medo", por ter em mãos "um texto precioso", que acabou por transformar num "objeto lúdico" que graficamente é quase uma revelação de um novo vocabulário.

"O arenque fumado" é um exemplo do género "monólogo fumista", divulgado pelo humorista francês Coquelin Cadet para designar textos curtos e com algum humor.

"É um poema sobre um arenque, mas é também um poema sobre o nada", explicou Miguel Gouveia, reconhecendo que, tal como diz Charles Cros no texto, poderá "enfurecer as pessoas e divertir as criancinhas".

A edição portuguesa do livro inclui um cordel para pendurar o arenque - tal como é sugerido no poema por Charles Cros.

André da Loba, que está referenciado entre os 200 melhores ilustradores de 2010, colabora regularmente com várias publicações norte-americanas, do New York Times à New Yorker, e tem ilustrações publicadas em cinco livros portugueses.

O mais recente é uma antologia de poemas de Bocage, editada pela Kalandraka.

Em 2009, André da Loba vendeu o carro e "tudo o que tinha" e usou o dinheiro para ir para Nova Iorque, onde tirou um mestrado em ilustração, e onde pretende ficar pelo menos por mais três anos.

O trabalho de ilustração de André da Loba, que pode incluir stencil, carimbos ou esculturas de cartão, encaixa no perfil da Bruaá, editora independente de livros ilustrados sedeada na Figueira da Foz que desde 2008 editou oito títulos, todos de autores pouco ou nada editados em Portugal.

Entre eles estão "A árvore generosa", de Shel Silverstein, "A grande questão", de Wolf Erlbruch, e "Popville", de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud.





SS.

+++ Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico +++

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