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Ponte de Lima: Taverna Vaca das Cordas é "arquivo histórico" daquela original tourada

Ponte de Lima, 07 jun (Lusa) -- A Taverna Vaca das Cordas, em Ponte de Lima, é um autêntico "arquivo histórico" da tradição que lhe deu nome, uma original tourada que todos os anos sai para a rua na véspera do Dia do Corpo de Deus.

Ponte de Lima, 07 jun (Lusa) -- A Taverna Vaca das Cordas, em Ponte de Lima, é um autêntico "arquivo histórico" da tradição que lhe deu nome, uma original tourada que todos os anos sai para a rua na véspera do Dia do Corpo de Deus.

O balcão e as paredes da taverna estão "forrados" com fotografias, cartazes e notícias de jornal alusivos à Vaca das Cordas, documentos em alguns casos com mais de 130 anos e, como tal, de "considerável valor histórico".

"Tenho aqui uma notícia que saiu no antigo jornal Comércio do Minho, em 1880", refere, à Lusa, o proprietário do estabelecimento de restauração.

Fernando Lima abriu aquela taverna há quase seis anos e decidiu batizá-la de Vaca das Cordas em homenagem não só a uma tradição de que se diz aficionado, mas também ao seu avô, um dos responsáveis pelo regresso da "tourada" às ruas de Ponte de Lima, após uns anos de interregno.

"Antes de abrir este estabelecimento, participava todos os anos na Vaca das Cordas, como qualquer limiano que se preze. Agora só não participo porque não tenho tempo, já que este é sempre um dos dias de maior movimento na taverna", afirmou.

O espólio documental sobre a Vaca das Cordas foi recolhido quer em arquivos quer através da cedência por particulares e continua a crescer, já que volta e meia lá aparece na taverna um cliente com material novo.

No dia 22, a Vaca das Cordas voltará a agitar as ruas de Ponte de Lima, para gáudio de milhares de pessoas que, "religiosamente", demandam o concelho para viver a tradição.

Uma tradição que manda que o touro saia para a rua pelas 18:00, conduzido por cerca de dezena e meia de pessoas e preso por duas cordas.

O animal é conduzido até à Igreja Matriz e preso à janela de ferro da Torre dos Sinos, sendo-lhe dado um banho de vinho tinto da região, "lombo abaixo, para retemperar forças".

Depois, dá três voltas à igreja, sempre com percalços e muitos trambolhões à mistura dos populares que ousam enfrentá-lo, após o que é levado para o extenso areal da vila, onde tem lugar a verdadeira "tourada".

"É aí que se desenvolve uma série de peripécias, com corridas, sustos, bravatas, nódoas negras e trambolhões, pegas de caras e de cernelha", conta Aníbal Varela.

Ao anoitecer, o animal é recolhido, sendo posteriormente abatido num matadouro para a carne ser comercializada num talho de Ponte de Lima.

A mais antiga referência que se conhece desta tradição remonta a 1646, quando um código de posturas obrigava os moleiros do concelho (ministros de função) a conduzir, presa por cordas, uma vaca brava.

Diz a lenda que a Igreja Matriz, da primitiva vila, era um templo pagão dedicado a uma deusa, simbolizada por uma vaca.

Posteriormente, este templo foi transformado em igreja pelos cristãos que retiraram do seu nicho a imagem da "deusa vaca" e com ela deram três voltas à igreja, após o que a arrastaram pelas ruas da vila, para alegria de todos os habitantes.

Daí virá o costume da "Vaca das Cordas", um ritual que foi interrompido em 1881 pela vereação, tendo reaparecido por volta de 1922, pela mão do avô de Fernando Lima e outros habitantes do concelho, para não mais deixar de se realizar.





VCP.

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