Fake News: a ilusão da verdade

"Não sabemos o que não sabemos" 

"Não sabemos o que não sabemos" 
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A sugestão para uma entrevista seguiu para o e-mail de David Dunning, do departamento de Psicologia, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Horas depois surgia a resposta. O psicólogo social estava disponível. Bastava acertar a hora e a data. E todos os detalhes ficaram agendados. A entrevista foi, cuidadosamente, preparada. À hora marcada, do dia agendado, é feita a chamada, via Skype.

Do outro lado, às 8 da manhã, hora local, um homem sereno, de sorriso no rosto, estava mais que pronto para uma conversa de quase 20 minutos, sobre o efeito que ajudou a criar, em finais da década de 90. E seguiram-se as perguntas, as respostas, a conversa entre o que sabemos e o que não sabemos, a nossa ignorância e toda a sabedoria que cada um tem e não tem. Terminada a conversa, a sincera e cordial despedida.

Segundos depois, quem está deste lado, animado pela entrevista que acabava de conseguir, apercebe-se que, devido a um problema informático, os últimos 20 minutos de conversa não ficaram, afinal, gravados no sistema.

Enviado de imediato um email, David Dunning é célere na resposta. Perante um problema, é ele que salta de novo para o ecrã do Skype, do lado da solução, disposto a repetir a entrevista.

O que se segue, é o resumo de uma conversa em dois takes, assente no mesmo conteúdo, transversal à lógica de um psicólogo que diz que já nada o surpreende, "no que diz respeito à imaginação humana em acreditar em coisas falsas". Coautor do Efeito Dunning-Kruger, refere que as "as pessoas tendem a sofrer de uma superioridade ilusória" e que "a nossa ignorância é invisível para nós".

O caso de McArthur Wheeler, o ladrão que pensava que se podia tornar invisível

Aos 60 anos de vida, David Dunning é um professor Doutorado, com carreira trilhada no campo social, atento às dimensões do conhecimento, das tomadas de decisões. É figura conhecida em palcos de conferências, a carregar e a espalhar por quem quer saber, e quer aprender mais de si, os truques da mente e a arquitetura de um conceito que ajudou a criar. A ideia nasce em meados da década de 90, do século passado.

"O caso de McArthur Wheeler, um ladrão de bancos que pensava que podia tornar a cara invisível, esfregando-a com sumo de limão, foi uma das histórias que surgiram nos primeiros dias, quando me perguntava sobre o facto de tanta gente entrar no meu escritório, ou de ter visto pessoas na televisão, a dizer coisas escandalosas, sobre as quais não pareciam expressar qualquer dúvida. E pensava: será que reconheciam que o que diziam era tão ultrajante, ou era apenas eu? Estaria eu demasiado confiante nas minhas próprias crenças e sem saber o que pensava ser ultrajante? Tudo isto levou à investigação empírica que fizemos", conta Dunning.

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A história é de um homem, de 45 anos, que assalta dois bancos em Pittsburgh, nos Estados Unidos, em Janeiro de 1995. Sem máscara, ou sem qualquer outro tipo de disfarce.

As imagens do assalto são transmitidas numa televisão local norte-americana, dedicada a assuntos criminais. Wheeler acaba por ser identificado e por ser preso. Aos polícias disse pensar que o sumo de limão que tinha colocado no rosto o tornava, precisamente, invisível às câmaras de vigilância.

A notícia entrou nos jornais, despertou a atenção de David Dunning e Justin Kruger, que partiram para um estudo mais aprofundado.

"Esperávamos que as pessoas se saíssem mal nos tipos de testes que lhes demos, sobre o seu sentido de humor, sobre a sua capacidade de raciocínio lógico. Esperávamos que se sobrestimassem a si próprias quando se estavam a sair mal, mas ficámos atónitos com o quanto as pessoas se sobrestimaram. Estavam quase tão confiantes como as pessoas que se estavam a sair muito bem. Ou seja, as pessoas parecem ter muito pouco discernimento quando lhes falta experiência, quando não têm conhecimento nem capacidade para dar respostas corretas", refere Dunning, nesta entrevista.

Afinal, o que é o Efeito Dunning-Kruger?

Em 1999 nasce, cientificamente, o Efeito Dunning-Kruger. E, afinal, o que é este conceito?

"É que não sabemos o que não sabemos. A nossa ignorância é invisível para nós. Portanto, aqueles que sofrem de ignorância - e isso somos todos nós, em algum momento, e para algumas pessoas a maioria do tempo - sofrem realmente de superioridade ilusória, porque não conseguem reconhecer quando o seu conhecimento é inferior", diz o psicólogo social.

Um conceito que nasce num período embrionário da Internet, como a conhecemos. São os primeiros tempos da geração Web, de uma rede que ainda se estava a formar, sem a dimensão social que acabou por se tornar numa chave de sucesso do mundo digital.

São as dinâmicas posteriores, dentro destas mesmas redes sociais, com as plataformas online que permitem a troca e a partilha de ideias e de informações, que acabam por alavancar todo este universo, feito de uma ténue fronteira entre o físico e o virtual.

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Sempre houve mentiras, desinformação, teorias de conspiração, as notícias falsas. Tudo isto acaba por ganhar uma enorme dimensão de força e de velocidade dentro do mundo online, no qual cada um se torna protagonista, com a capacidade para emitir ou para partilhar conteúdos.

Chegou a dizer Umberto Eco, que "as redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de falar quando uma vez só falaram num bar depois de um copo de vinho, sem prejudicarem a comunidade".

A frase foi lida a David Dunning, na conversa com a SIC, à qual se seguiu a pergunta, se concorda com o que disse o escritor, filósofo, semiólogo e linguista italiano. A resposta, passa mais que tudo, por quem sabe do que fala. E não por quem comenta ou que não saber, quem de seixa ir na corrente da desinformação:

"O que é impressionante durante esta época pandémica é a quantidade de conhecimento que os cientistas, os decisores políticos, a ciência médica têm sido capazes de produzir sobre um vírus sobre o qual nada sabíamos há um ano. E isso é bastante impressionante. O problema é que também há muitas ideias a flutuar que estão erradas e por vezes tornam-se populares e podem ter o efeito de expulsar o verdadeiro conhecimento. Portanto, estamos numa situação que é, incrivelmente, impressionante. A quantidade de informação que conseguimos reunir como sociedade, nos últimos 12 meses. Mas há um problema. Há muita desinformação e temos de estar atentos para podermos separar a informação verdadeira da desinformação".

"Encontramo-nos numa situação em que devemos dizer não sei"

A acompanhar toda a evolução da atual pandemia de covid-19, também a infodemia se tem disseminado. Torna-se cada um na mensagem, e não, neste caso, o meio em si. E cabe a cada um gerir o que sabe e a informação que recebe. E dizer, por vezes, simplesmente, "não sei".

"Como espécie temos sido excelentes a descobrir coisas. Por isso estamos habituados a encontrar uma resposta. E esse é o nosso génio intelectual, se quiser. Mas à parte desse génio, encontramos, por vezes, respostas erradas, e por vezes respostas espetacularmente erradas. Encontramo-nos numa situação em que devemos dizer 'não sei', mas estamos preparados para descobrir algo e ter uma resposta. Portanto, penso que é seguro dizer que as pessoas devem dizer 'não sei' muito mais vezes do que realmente sabem. É uma coisa difícil de dizer. É uma coisa difícil de reconhecer", refere.

Dunning reitera que pode cada um tropeçar a qualquer instante neste feito. Mais que isso. De alguma forma, todos já lá fomos parar. Incluindo o próprio David Dunning.

"Gostaria que a minha ignorância fosse mais visível para mim, porque estudo a ignorância e gosto de refletir sobre os fenómenos psicológicos que estudo. Mas o problema para mim é que sei, pela minha própria pesquisa, que quando entro no efeito Dunning-Kruger, não sei que estou a entrar no efeito Dunning-Kruger", diz.

Numa era de excesso de informação, de desinformação em contra corrente com os fatos, também o que é falso pode ameaçar a verdade, as decisões corretas de cada um baseadas na evidência produzida pela ciência. Torna-se difícil separar factos de opiniões. Difícil, mas não impossível.

"É uma tarefa extremamente difícil. Sugeria não o fazer sozinho e tentar encontrar os peritos que têm a função de separar a boa informação da má informação. É preciso ser capaz de encontrar os peritos e de os ouvir. Mas o truque é o seguinte. Saber distinguir um verdadeiro perito de um falso perito também é uma aptidão. E à medida que avançamos na era da Internet, onde há tanta informação, esta vai ser uma aptidão chave que as pessoas devem aprofundar. Se está a tentar descobrir quais são os verdadeiros peritos, não ouça apenas um perito, ouça peritos. Tente encontrar múltiplas fontes e veja se elas convergem no mesmo tipo de informação", adianta.

Como evitar o Dunning Kruger

Sobre a forma de se evitar efeito Dunning Kruger. o psicólogo social encontra uma resposta simples, curta e direta: "É tornar-se um especialista". E acrescenta, fara fechar os 20 minutos, neste segundo take desta conversa:

"Se for especialista, não tem um nível de desconhecimento que é invisível para si. É conceptualmente fácil, mas na vida real é realmente difícil de fazer. A única coisa a ter em mente é que o efeito Dunning-Kruger - não saber o que não se sabe -, é algo que realmente acontece mais quando se tenta fazê-lo sozinho. Quando se tenta decidir o que é certo contra o que é errado. É muito importante consultar outras pessoas, descobrir verdadeiros especialistas e consultá-los. É através de outras pessoas que aprendemos sobre coisas que não sabíamos, que não sabíamos. Isso é muito importante. Esta é uma questão coletiva."

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