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Índice de liberdade Covid que coloca Portugal no fim da lista é credível?

Índice de "Liberdade Covid" afirma que há países com situações epidemiológicas cada vez menos graves, mas que não levantam restrições, aproximando-se de governos ditatoriais.

Índice de liberdade Covid que coloca Portugal no fim da lista é credível?
Pedro Nunes

O Russia Today publicou um índice, intitulado “Liberdade Covid”. Na publicação, o meio de comunicação afirma que o número de hospitalizações e mortes por Covid-19 tem vindo a diminuir em vários países, mas ainda assim há governos que mantêm as restrições às liberdades individuais dos cidadãos. Na notícia, o título sugere que alguns governos se tornaram totalitários no contexto da pandemia.

Será que este índice é credível?

O índice avalia as liberdades de 44 país. Apenas constam 18 países da União Europeia nesta lista. Os critérios para a pontuação baseiam-se nas liberdades básicas, como sair de casa, viajar pelo país ou liberdade de informação sobre a Covid-19; funções essenciais como lojas e escolas abertas; eventos públicos como reunir com grupos de pessoas; liberdade de viajar entre fronteiras; liberdade de vigilância e liberdade médica, onde se analisa se as pessoas são discriminadas caso não estejam vacinadas.

No mapa, colorido em vários tons de vermelho – uma escala que vai de menos restrições a mais restrições – Portugal e Espanha surgem coloridos a vermelho escuro: o máximo na escala de mais restrições. Contabilizam um índice de 0,82 e 0,64 respetivamente. Também na mesma escala está a China com um índice de 0,65 e Itália com 0,74. Os países com uma cor vermelha esbatida ou vermelho vivo são aqueles que têm menos medidas. Austrália e a Coreia do Sul estão pintados com estas cores, com 1,39 e 1,38 respetivamente. Logo a seguir está a Bielorrússia, o México e a Rússia, com índices que variam entre 1,26 a 1,24. Pode consultar aqui.

O Russia Today afirma que este índice é atualizado semanalmente, de acordo com a redução ou acréscimo de novas restrições. A publicação admite que o índice tem as suas limitações, mas que minimiza a parcialidade, através de critérios fáceis de quantificar e fontes credíveis.

O artigo entra em contradição quando diz que “o país repressivo que não implementou restrições adicionais relacionadas com a pandemia é mesmo assim um país repressivo”, mas avisa que “muitas das restrições podem ser entendidas apenas no contexto da pandemia e situação de saúde pública do país”. Ou seja, o próprio órgão de comunicação admite comparar países repressivos que tomaram medidas adicionais no contexto da pandemia com países democráticos que restringiram algumas liberdades num contexto específico, neste caso da pandemia da Covid-19.

É, por exemplo, o caso da China, que é uma centésima mais “livre” do que Espanha, segundo o índice. A situação epidemiológica da China está, atualmente, estabilizada. Já no caso de Espanha, tal como em Portugal, tem registado um decréscimo lento no número de hospitalizações e mortes. As medidas restritivas destes três países estão ao mesmo nível, embora se encontrem em situações de contágio diferentes.

A Austrália é considerado o país mais “livre”. Na semana entre 8 a 14 de março teve quase o mesmo número de mortes e hospitalizações por Covid-19 que Portugal, mas menos restrições. No entanto, a 22 de janeiro – dia com mais mortes em Portugal pela Covid-19 – Portugal estava no topo da lista no mundo, com mais mortes por 1 milhão de habitantes. Já a Austrália, registava 0 mortes. Neste sentido, os contextos epidemiológicos são diferentes e, por isso, as decisões ao nível governamental também o são. Os indicadores estão aplicados a contextos diretos e, por isso, é incorreto compará-los diretamente.

No que diz respeito às fontes, cada critério avaliado é suportado por links diretos para as fontes. A maioria são fontes oficiais dos governos dos países analisados ou de órgãos de comunicação. Mas especificamente no indicador da liberdade de informação sobre assuntos relacionados com a Covid-19 o índice recorre a sites que se fazem passar por órgãos de comunicação social, como são os casos do Euro Weekly News, Grada World e o The Local. Em alguns casos, a avaliação neste parâmetro chega a não ter fonte.

Em suma, estamos perante um índice falacioso, que compara restrições às liberdades dos cidadãos em contextos diferentes, tanto epidemiológicos como de tipo de regime, e não apresenta fontes credíveis em alguns parâmetros.

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