Revista do Ano 2019

Não chega de saudade

João foi um sussurro entoado vezes sem conta em sambas de uma nota só que, num ápice, davam lugar ao fulgor (contido, muito contido) de uma espécie de desabafo que quase gritava Chega de Saudade.

Não chega de saudade
Facebook João Gilberto

Um homem e um violão. Um é o prolongamento do outro, numa relação íntima de intrínseca reciprocidade.

O primeiro é o mestre do segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia até os dias que foram se transformarem no epitáfio que é; pois que o mundo se despediu, súbito e efémero, de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira a 6 de julho de 2019. Prevalecendo os dois primeiros nomes neles se reconhecem o talento, o virtuosismo, o génio criativo e a vida do arquitecto da Bossa Nova, género edificado nos bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro, já encantador nos meados da década de 50 do século que para trás ficou.

Se os olhos são o espelho do tacto, o tacto foi o espelho dos olhos de João Gilberto; músico, instrumentista, autor, compositor e cantor da eterna dolência que se pressentia na voz. Amargo por vezes, desencantado muitas, desafinado nunca, mesmo quando o entusiasmo das plateias o irritava de sobremaneira, aguardando passiva e impacientemente que os aplausos dessem lugar ao silêncio que tanto privilegiava.

João foi um sussurro entoado vezes sem conta em sambas de uma nota só que, num ápice, davam lugar ao fulgor (contido, muito contido) de uma espécie de desabafo que quase gritava Chega de Saudade. Do homem mais solitário que só, muito se disse e escreveu, tantas vezes em vãs tentativas de o descortinar. Seja como for, a especulação deu lugar à lenda, à reverência e à admiração mantidas em torno da sua aura até ao fatídico dia da sua expiação.

Tentou ser discreto tanto quanto possível e, quando o possível não o era, não escondia o desconforto tornado excentricidade quando bramido pelas más-línguas da fama. Pouco ou nada o afetaram o escárnio e o mal-dizer, porque nunca foi homem de cantigas mas homem de canções. Que o digam Vinicius de Moraes, “poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil”, ou Carlinhos Lira ou, claro, António Carlos Jobim, muito provavelmente o maior compositor brasileiro do século XX.

Todos eles e mais alguns formaram uma espécie de núcleo que, por ser diferente do “establishment”, logo foi apelidado de elitista pelos pobres de espírito que não souberam distinguir o suposto elitismo da real sofisticação. João e parceirinhos seguiram o caminho que eles próprios criaram, sendo seguidos por nomes maiores da música brasileira como Nara Leão, tão esquecida que é por demais urgente voltar a lembrá-la.

Ironicamente, esta que foi classificada como música de nicho havia de tornar-se... universal, sendo, a par do samba, o género mais identificado quando se fala do (imenso) talento musical oriundo das Terras de Vera Cruz. O jazz mais acima do continente logo lhe prestou tributo e, para a História, há de ficar o registo audio e vídeo do encontro entre Sinatra e Jobim. E João?

Bem, João e o violão percorreram os quatro cantos do mundo que, paragem após paragem, se rendia ao fascínio da melodia e à ternura da voz do homem aparentemente humilde que se apresentava sempre de fato imaculado, face escanhoada com esmero e um nó de gravata irrepreensível. Depois de se curvar diante do público, sentava-se e, a solo ou acompanhado, dava muito mais que concertos; João Gilberto dava recitais... Infelizmente, não chegam à dezena os registos dos espetáculos ao vivo, alguns dos quais com o algo irritante Stan Getz, que nem sequer apreciava o jazz de um modo geral, mas que viu na nova sonoridade vinda do Brasil uma oportunidade de sucesso. Conquistou-o.

A escassez mantém-se nos álbuns de estúdio: cerca de uma dúzia, sendo que para o escriba são indispensáveis o primeiro, de 1959: “Chega de Saudade” é o registo histórico de uma nova aurora no panorama musical internacional -- e cuja capa original é, ela própria, definidora da personalidade do intérprete – e o último, datado do ano 2000 e que, sugestivamente, se chama: “João, Voz e Violão”.

Acreditem: é mais que suficiente.