Cultura

"Com a morte de Manuel Graça Dias desaparece um pensador da cidade"

SIC/ Arquivo

As reações à morte do arquiteto Manuel Graça Dias.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou hoje a morte do arquiteto Manuel Graça Dias, domingo à noite num hospital de Lisboa com 66 anos.

Numa nota de pesar enviada às redações é traçado o percurso do arquiteto e são enviadas condolências à família e amigos.

Com a morte de Manuel Graça Dias desaparece um pensador da cidade para as pessoas e da arquitetura enquanto disciplina estética.

A ministra recorda que Manuel Graça Dias abriu, com Egas José Vieira, o atelier Contemporânea, que constituiu "uma das mais influentes assinaturas da arquitetura contemporânea em edifícios públicos que revelam uma preocupação sobre a passagem do tempo enquanto elemento constitutivo de uma relação atenta aos usos diferenciados e às transformações estéticas, sociais e urbanísticas das cidades".

"Devemos-lhe a assinatura de obras como a sede da Associação dos Arquitetos Portugueses (1991), em Lisboa, o Teatro Municipal de Almada (2005), a Escola de Música, Artes e Ofícios de Chaves (2004-2008) e, mais recentemente, a requalificação do Teatro Lu.Ca(2018), em Lisboa", destacou.

Ao longo dos anos, Manuel Graça Dias foi acompanhando a evolução das cidades através de projetos que propunham reorganizações do espaço público, adaptando, concebendo ou estruturando os seus projetos, tornando-os estéticos e funcionais.

"A originalidades dos interiores e a alegria da cor foram, simultaneamente, uma marca do seu trabalho, numa atenção à conjugação dos detalhes, que pode ser vista e vivida, por exemplo, no restaurante italiano Casanostra, em Lisboa, ou no azul do Teatro, em Almada", destacou a governante.

Foi com o Pavilhão de Portugal, na Exposição Universal de Sevilha, em 1992, que o arquiteto ficou reconhecido como tendo marcado "definitivamente o pós-modernismo português".

Arquiteto, mas também professor, teórico, curador e "empenhado defensor de uma política para a arquitetura", Manuel Graça Dias era atualmente professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e na Universidade Autónoma de Lisboa.

Conselho dos Arquitetos de Língua Portuguesa destaca importância da obra

O presidente do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP) sublinhou hoje, em declarações à Lusa, a importância da obra e a capacidade de comunicação do arquiteto Manuel Graça Dias.

"A arquitetura era uma coisa fechada e ele teve um papel central ao trazê-la para o grande público, como cultura de consumo, o que foi essencial para a arquitetura e para a própria classe", defendeu Rui Leão, que vive em Macau, onde Manuel Graça Dias iniciou a sua carreira.

"Era uma figura incontornável porque tinha capacidade de comunicar com todos", um "professor extraordinário, "com capacidade para promover a liberdade de cada um", afirmou.

"Mas, acima de tudo, tenho que destacar a sua obra, que é bastante particular, associada a uma maneira de ver as coisas de uma forma pós-moderna", lembrou.

O presidente do CIALP frisou ainda "a capacidade de Graça Dias em fazer arquitetura a partir de coisas revisitadas, não a entendendo como um exercício exclusivamente erudito e fechado, mas antes como a vida, com o encantamento do dia-a-dia, com o trivial".

Rui Leão destacou ainda a participação de Manuel Graça Dias no lançamento do livro "Macau Glória", um levantamento sobre aquele território publicado em 1991, em coautoria com Manuel Vicente e Helena Rezende.

"O livro, que tem fotografias e desenhos dele, é muito importante para todos nós nesta experimentação da procura de novas leituras com um sentido pós-moderno, da qual nem se falava ainda, mas que Graça Dias parecia estar já à procura", salientou.

O percurso do arquiteto que pensava a cidade

O arquiteto Manuel Graça Dias, que interveio na recuperação do Teatro Luís de Camões, em Lisboa, morreu no domingo à noite, num hospital de Lisboa, com 66 anos, disse um amigo à agência Lusa.

Manuel Graça Dias nasceu em Lisboa, e licenciou-se em arquitetura em 1977, pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, iniciando-se, profissionalmente, no ano seguinte, como colaborador do arquiteto Manuel Vicente, em Macau.

Foi assistente da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa (1985-1996) e professor auxiliar da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (1997-2015), onde se doutorou com a tese "Depois da cidade viária" (2009). Era atualmente professor associado da mesma faculdade e professor catedrático convidado do Departamento de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa, desde 1998, que também dirigiu, entre 2000 e 2004.

A casa que recuperou em 1979, no bairro lisboeta da Graça, com António Marques Miguel, recebeu a Menção Honrosa Valmor/1983.

Obteve, ainda, o 1.º lugar no concurso para o Pavilhão de Portugal na Expo'92 em Sevilha, no sul de Espanha, bem como o 1.º lugar no concurso para a construção da nova sede da Ordem dos Arquitetos, nos antigos Banhos de S. Paulo, ambos com Egas José Vieira.

Graça Dias foi autor do programa quinzenal "Ver Artes/Arquitetura" na RTP2, entre 1992 e 1996, e foi colaborador da rádio TSF e do semanário Expresso na área da crítica de arquitetura (2001/2006).

Na TSF, destaca-se o programa "Ao Volante pela Cidade", conversas, em forma de percurso urbano, que manteve com arquitetos como Manuel Vicente, Carlos Duarte, Souto de Moura, Álvaro Siza, Fernando Távora, Pancho Guedes e Alexandre Alves Costa, entre outros.

O programa deu origem a um livro do mesmo nome, publicado pela Relógio d'Água.

Foi diretor do Jornal Arquitetos entre 2009 e 2012, assumiu a direção da Ordem dos Arquitetos de 2000 a 2004 e, entre outras funções, foi presidente da Secção Portuguesa da Association Internacional des Critiques d'Art, SP/AICA (2008-2012).

Foi autor de vários livros de crítica ou divulgação de temas de arquitetura.

Manuel Graça Dias tem trabalhos construídos em Almada, Braga, Chaves, Guimarães, Lisboa, Porto, Vila Real, Macau, Madrid, Sevilha e Frankfurt, foi coautor do "Estudo de Reconversão Urbana do Estaleiro da Lisnave", em Cacilhas, no concelho de Almada.

O Teatro Municipal de Almada (Teatro Azul, 1998-2005), que projetou com Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias, foi nomeado para o Prémio Secil/2007, para o Prémio Mies van der Rohe/2007 e para o Prémio Aga Khan, 2008/2010.

Manuel Graça Dias e Egas José Vieira ganharam o Prémio AICA/Ministério da Cultura de Arquitetura, de 1999, pelo conjunto da sua obra construída.

Em 2006, Manuel Graça Dias foi agraciado, pelo então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, com a Ordem do Infante D. Henrique (grau comendador).

Era irmão da escritora Dóris Graça Dias (1963-2014).

Com Lusa

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