Cultura

Viva Alain Delon!

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Aos 83 anos de idade, Alain Delon será uma das personalidades em destaque na 72ª edição de Cannes: o maior festival de cinema do mundo vai distingui-lo com uma Palma de Ouro honorária.

Nascido a 8 de Novembro de 1935, Alain Delon será este ano homenageado com uma Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes (14-25 Maio), distinção que já foi atribuída, por exemplo, a Woody Allen (2002), Catherine Deneuve (2005) ou Manoel de Oliveira (2008).

É provável que alguns espectadores tenham recebido a notícia com um misto de perplexidade e ironia — afinal, o maior festival de cinema do mundo também distingue os “galãs” de cinema?...

Estou a ironizar, claro. Seja como for, importa reconhecer que a memória (ou a falta dela) nos pode equivocar. Afinal, é tristemente verdade que nós, europeus, nem sempre sabemos cultivar as referências mais emblemáticas do cinema do nosso continente.

Convém lembrar que Delon tem uma carreira que está muito para além da imagem de “duro” em filmes policiais... mesmo se é verdade que a sua expressão fria e indecifrável no clássico de Jean-Pierre Melville, “O Ofício de Matar” (1967), sempre com o estilizado chapéu cinzento, define toda uma arte de representar e saber enfrentar a câmara.

O seu primeiro grande sucesso, o policial “À Luz do Sol” (1960), de René Clément, poderia tê-lo reduzido a uma função de “poseur” mais ou menos ligado às imagens masculinas da moda. É óbvio que ele também foi isso (e com sofisticada elegância), mas basta citar alguns dos autores com que trabalhou ao longo dos anos 60/70 para reconhecermos que foi muito mais do que isso. Por

exemplo: Luchino Visconti (“Rocco e os Seus Irmãos” e “O Leopardo”, respectivamente em 1960 e 1963), Michelangelo Antonioni (“O Eclipse”, 1962), Joseph Losey (“O Assassinato de Trotsky”, 1972), Valerio Zurlini (“Outono Escaldante”, 1972), etc.

Há mesmo na trajectória de Delon algumas obras-primas que, não tendo tido significativo impacto comercial na altura do respectivo lançamento, permanecem por descobrir por muitos espectadores. Penso, por exemplo, em “Mr. Klein” (1976) de novo de Losey, um dos filmes mais perturbantes que já se fizeram sobre a perseguição dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, ou “Nova Vaga” (1990), de Jean-Luc Godard, prodigioso retrato das relações masculino/feminino num mundo ferido por uma perversa decomposição de valores.

Nos seus melhores momentos, Delon foi esse actor capaz de combinar o minimalismo da representação com a proliferação de detalhes e sugestões que distingue as personagens maiores que a vida. Para além do seu valor icónico para o público francês, creio que é também essa peculiar versatilidade que Cannes vai celebrar. Até mesmo na sua capacidade de auto-ironia — lembremos, por exemplo, a sua divertida composição em “Astérix nos Jogos Olímpicos” (2008), interpretando uma versão deliciosamente absurda de Júlio César.

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