Cultura

O cinema dos nossos medos

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O primeiro “Alien”, entre nós lançado com o subtítulo “O 8º Passageiro”, está a fazer 40 anos. A saga inaugurada por Ridley Scott ilustra, afinal, a capacidade do cinema lidar com tudo aquilo que nos perturba, no limite, desafiando a nossa identidade humana.

O primeiro título da saga “Alien” está a fazer 40 anos. Foi a 25 de Maio de 1979 que o filme realizado por Ridley Scott surgiu nas salas dos EUA, tendo começado a chegar aos mercados europeus a partir de Setembro do mesmo ano (a estreia portuguesa ocorreu a 21 de Outubro, com o subtítulo “O 8º Passageiro”).

Filme chave, como bem sabemos, na história de um domínio temático em que se cruzam as componentes da ficção científica (uma nave ameaçada por uma figura monstruosa, o “alien” do título) e as leis primitivas do cinema de terror (num crescendo de “suspense” cuja eficácia continua a surpreender).

Devo reconhecer, mea culpa, que fui um dos espectadores que demorou algum tempo a identificar a importância histórica e simbólica de “Alien”, mesmo tendo já simpatizado muito com o filme anterior de Scott, “O Duelo” (1977), uma saga da era napoleónica com Keith Carradine e Harvey Keitel. De facto, “Alien” não era apenas uma derivação das aventuras galácticas relançadas por “Star Wars” (o primeiro episódio rodado por George Lucas surgira dois anos antes).

E não deixa de ser irónico observar que, nesta nossa era de discussões de todos os tipos sobre o direito à diferença, “Alien” tenha no seu centro uma poderosa figura feminina, a lendária Ripley interpretada por Sigourney Weaver [foto]. Aliás, como a própria Weaver esclareceu publicamente, é curioso lembrar que o seu

papel não resultou de uma qualquer escolha “militante”: tinha sido escrito para um homem, tendo ela surgido apenas como opção de última hora (uma memória mais ou menos lendária refere que Scott terá recebido uma sugestão nesse sentido da parte de Warren Beatty).

O certo é que, revendo agora “Alien”, sentimo-lo como um objecto de perturbante actualidade. Desde logo porque o carácter visceral dos nossos medos surge encenado a partir de uma cruel revolta dos elementos naturais. Assim, o monstro que habita um planeta distante, mais do que uma entidade “do outro mundo”, é um ser que procura o aconchego do corpo humano — como todos os espectadores se recordarão, a sua reprodução passa pelo depósito de ovos no interior de um dos passageiros da nave Nostromo (interpretado por John Hurt), daí nascendo através de um parto absolutamente trágico.

Mais do que isso: os viajantes da nave que encontra o “alien” são peões incautos de uma aventura que, mais do que corresponder a um desejo de descoberta de novos horizontes, está toda ela condicionada por interesses económicos de grandes corporações, totalmente indiferentes à sobrevivência dos seus peões humanos.

O filme de Scott teve várias continuações: “Aliens: O Recontro Final” (1986), de James Cameron, “Alien 3 – A Desforra” (1992), de David Fincher, e “Alien: O Regresso” (1997), de Jean-Pierre Jeunet. Mais recentemente, o próprio Scott regressou com dois títulos cuja acção é anterior ao primeiro filme: “Prometheus” (2012) e “Alien: Covenant” (2017).

Em termos pessoais, devo dizer que tenho uma admiração muito especial pelo episódio realizado por Fincher (que, recorde-se, se estava a estrear na longa-metragem, só vindo a assinar “Seven – 7 Pecados Mortais” três anos mais tarde). Em qualquer caso, com filmes melhores ou piores, a persistência de “Alien” no imaginário popular é reveladora: por vezes, o cinema convoca os nossos fantasmas para uma convivência tão perturbante quanto fascinante.