Cultura

Nos tempos do (outro) Rei Leão

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A estreia do novo filme do Rei Leão justifica que regressemos ao original, lançado há um quarto de século — era uma conjuntura de produção bem diferente daquela que existe nos dias de hoje.

A nova versão de “O Rei Leão” aí está: uma proeza de fabricação digital que sabe herdar o gosto de espectáculo e a arte da fábula do original, lançado em 1994. Acima de tudo, a nova realização de Jon Favreau mantém a lógica e os valores narrativos do desenho animado que está a fazer um quarto de século.

Entretanto, muita coisa mudou. Desde logo, nos estúdios Disney que, em 1994, estavam a relançar a sua própria unidade de produção de animação (processo iniciado em 1989, com “A Pequena Sereia”) Mais do que isso: a casa do Rato Mickey e do Pato Donald ainda não controlava, por exemplo, a Pixar. Em boa verdade, apesar de algumas provas fascinantes já prestadas no domínio da curta-metragem digital, a Pixar ainda nem sequer se tinha definido como um parceiro decisivo no jogo de produção de Hollywood — a sua primeira longa de animação, “Toy Story”, só surgiria em 1995.

Quando reavaliamos a conjuntura em que surgiu o primeiro título de “O Rei Leão”, o mais impressionantes talvez seja a própria organização do cinema habitualmente referido como mais “comercial” (classificação aplicada quase sempre de modo esquemático e moralista).

Mesmo considerando apenas os números do “box office”, o ano cinematográfico de 1994 foi particularmente impressionante: entre os títulos que ficaram no Top 10 das receitas surgem, por exemplo, “Forrest Gump”, com Tom Hanks, “A Verdade da Mentira”, com Arnold

Schwarzenegger, ou “Quatro Casamentos e um Funeral”, comédia inglesa de grande sucesso nos EUA (e um pouco por todo o lado).

Quer isto dizer que, mesmo tendo em conta apenas a maior frente industrial da produção cinematográfica, encontramos uma diversidade de fazer inveja às rotinas de super-heróis & afins, hoje em dia dominantes. 1994 é também o ano de projectos tão curiosos como “Maverick”, variação paródica do “western” com Jodie Foster e Mel Gibson, “Speed”, um “thriller” com Keanu Reeves e Sandra Bullock, ou “Entrevista com o Vampiro”, brilhante reinvenção dos filmes de vampiros com Tom Cruise, Brad Pitt e Kirsten Dunst.

O que importa sublinhar não é tanto a ideia (?) segundo a qual os filmes de uma época seriam “melhores” ou “piores” que os de outra época... É, isso sim, o facto de há 25 anos a produção dos grandes estúdios se mostrar mais disponível para os riscos da diversidade criativa. Além do mais, sem que sejam assumidos esses riscos, por certo calculados, é a vitalidade do próprio mercado que pode ficar comprometida.

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