Cultura

Festival de Cannes em maio: sim ou não?

Cannes: eis a entrada principal do Grande Auditório do Palácio dos Festivais

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Na presente conjuntura de combate ao surto do novo coronavírus, todos os eventos cinematográficos estão a ser profundamente abalados. No caso do Festival de Cannes, a pergunta é: o certame poderá acontecer entre 12 e 23 de maio?

Escusado será sublinhar que a pandemia que a humanidade enfrenta está a ter efeitos drásticos no mundo dos espectáculos, em geral, e na indústria cinematográfica, em particular.

A lista de filmes com rodagens suspensas cresce todos os dias, envolvendo, por exemplo, alguns dos títulos mais sonantes da produção dos EUA (como o novo “Batman”, com Robert Pattinson, ou a versão musical de “Cinderella”, dos estúdios Disney). Além do mais, muitos eventos ligados ao cinema e, genericamente, ao audiovisual estão a ser cancelados, incluindo o MipTV que estava agendado para Cannes, de 30 de março a 2 de abril.

Daí o reforço de uma incontornável pergunta: o Festival de Cannes, o maior e mais importante certame do mundo do cinema, vai ou não realizar-se? Recorde-se que a edição do ano passado adquiriu especial valor simbólico, uma vez que deu a conhecer o filme sul-coreano “Parasitas”, aliás consagrando-o com a Palma de Ouro — eis o video oficial de balanço dessa 72ª edição.

De acordo com um artigo publicado no site de “Le Point”, a 73ª edição não irá acontecer nas datas previstas, ou seja, de 12 a 23 de maio. A revista francesa cita uma fonte da administração do próprio festival, segundo a qual “será muito difícil, para não dizer impossível, seleccionar filmes vindos da China, da Coreia, do Irão, de Itália (e, sem dúvida, de uma meia centena de países), sabendo que os actores e realizadores não poderão viajar.” Isto sem esquecer, claro, a concentração de pessoas que o certame envolve, desde a principal sala do Palácio dos Festivais (com 2300 lugares) até aos espaços do Mercado do Filme (que, em 2019, contou com 12527 participantes de 121 países).

Oficialmente, o festival mantém-se silencioso, remetendo qualquer declaração oficial para a tradicional conferência de imprensa de anúncio da selecção oficial de filmes. Agendada para 16 de abril, essa conferência poderá ser, de facto, de reconhecimento da impossibilidade prática de concretizar o certame. Sabe-se, em qualquer caso, que na véspera deverá ter lugar uma reunião decisiva entre a organização, as autoridades locais e os representantes do Estado francês.

Mesmo que tentemos manter algum optimismo, e acreditemos que o festival se vai realizar nas datas previstas, o evento ficará inevitavelmente marcado pela conjuntura de emergência que se vive em França e em todo o mundo. O que relança, em moldes inesperados, uma discussão que, como sabemos, Cannes protagonizou nos últimos anos. Ou seja: como podem ou devem coexistir as formas tradicionais de difusão dos filmes e as novas plataformas de streaming? Para já, só nos resta aguardar as decisões a comunicar no dia 16 de abril.