Cultura

O último Asterisco

Por ocasião das celebrações dos 50 anos de Astérix, Uderzo foi bastante explícito sobre o futuro do personagem: “Já houve um Astérix depois de Goscinny e espero que haja um Astérix depois de mim.”

E eis que, aos 24 dias de março de 2020, o mundo – desorientado e titubeante face a uma ameaça insidiosa e implacável – se despede de Albert Uderzo, desenhador de exceção, lenda no universo da nona arte, da qual foi, durante décadas, nome maior e transversal nas gerações que contactaram (e contactam) com a arte deste francês nascido no dia 25 de abril... de 1927. Os seus 92 anos de vida foram largamente preenchidos com a devoção à banda desenhada, sobretudo desde que travou amizade com a sua “cara metade” artística: no início da década de 50 do século passado, Uderzo conhece René Goscinny e, no final do mesmo decénio, surgem a figura e as aventuras de Astérix, o Gaulês. Com ele viria o notável conjunto de personagens da pequena aldeia gaulesa que, no ano 50 A.C., resiste ainda e sempre ao invasor romano, vítima primeira dos poderes sobrenaturais de uma poção mágica criada pelo druida da aldeia, o respeitável Panoramix.

A criação da dupla viu a estampa pela primeira vez no final de outubro de 1959, no número inaugural da mítica revista “Pilote”. Dois anos depois era editado o primeiro de muitos álbuns que mostraram, urbi et orbi, as venturas e desventuras de Astérix que, na companhia do inseparável amigo Obélix e do pequeno Ideiafix (cãozinho de estimação do segundo) percorrem o Mundo Antigo libertando povos e povoados da tirania de César. Mais de 80 línguas e 30 dialetos (entre os quais o mirandês) adotaram os álbuns da dupla desfeita precocemente: Goscinny morreu em 1977, uma perda que Uderzo lembrou até final da sua própria vida.

De entre os 35 álbuns editados, todos disponíveis em Portugal, permito-me destacar três: o primeiro, por razões óbvias, “O Domínio dos Deuses” (obra notável sobre o “modernismo” deslocado no tempo) e “Astérix nos Jogos Olímpicos”, prodigioso exercício de imaginação e criatividade que é puro entretenimento. “A Volta à Gália” ou “A Zaragata” (crítica social cada vez mais “update” com a omnipresença das “fake news” nos nossos dias) são igualmente obras dignas de registo; e, diga-se em abono da verdade, mesmo as que estão alguns furos abaixo, continuam uns bons furos acima do que por aí se publica.

Com mais de 350 milhões de livros vendidos em todo o mundo, o cinema não podia passar ao lado do sucesso do personagem e dos seus criadores: 13 adaptações na animação e 4 filmes com imagem real (nem Gérard Depardieu ficou de fora quando chamado a interpretar Obélix) dizem bem da universalidade saída do traço e da pena da dupla francesa.

Aqui chegados, importa destacar um último ponto, nem que seja para ressalvar a negligência de que tem sido alvo: é absolutamente imprescindível a leitura de Humpá-Pá, o Pele-Vermelha. É ainda mais antigo que Astérix, uma vez que surgiu um ano antes na revista Tintin. Não chegam à meia-dúzia os álbuns publicados, mas qualquer um deles é um regalo para a leitura. E é, quem sabe?, uma oportunidade para descobrir além de Astérix o universo de Uderzo e Goscinny. O primeiro viveu 92 anos, o segundo apenas 51. Ambos morreram de ataque cardíaco.

Por ocasião das celebrações dos 50 anos de Astérix, Uderzo foi bastante explícito sobre o futuro do personagem: “Já houve um Astérix depois de Goscinny e espero que haja um Astérix depois de mim.”

  • 100 mortes e 5.170 casos de Covid-19 em Portugal

    Coronavírus

    O número de óbitos subiu de 76 para 100 em relação ao último balanço da DGS, enquanto o número de infetados aumentou de 4.268 para 5.170, mais 902 em relação a ontem. A região Norte continua a ser a mais afetada. A ministra da Saúde diz que a incidência máxima da doença deve acontecer no final de maio. Siga aqui ao minuto as últimas informações sobre a pandemia de Covid-19.

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    SIC Notícias