Cultura

Filmes em quarentena: “Cobain: Montage of Heck”

Kurt Cobain e a filha, Frances Bean — memórias íntimas expostas sem cedências "voyeuristas"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Kurt Cobain, figura central da banda rock Nirvana, está retratado num belo documentário realizado a partir de materiais inéditos do seu espólio — o filme pode ser visto ou revisto numa plataforma de “streaming"

Se é verdade que não é possível fazer a história da música popular das décadas finais do século XX sem ter em conta a breve discografia dos Nirvana — Bleach (1989), Nevermind (1991) e In Utero (1993) —, não é menos verdade que toda essa história está contaminada pelas memórias trágicas de Kurt Cobain que se suicidou a 5 de abril de 1994, contava 27 anos. Para o melhor e, sobretudo, para o pior essa é uma história muitas vezes envolvida em esquematismos mitológicos que passam ao lado da dimensão humana, seus contrastes e contradições. Daí o valor informativo e, de alguma maneira, jornalístico de um documentário como Cobain: Montage of Heck (2015), de Brett Morgen, actualmente disponível numa plataforma de “streaming”.

Um pouco por todo o lado, o filme foi lançado com o título original porque, de facto, envolve um jogo de palavras de difícil, senão impossível, tradução. Remete para uma ideia de puzzle, um labirinto de factos, pensamentos e emoções: na música e para lá da música, a vida de Cobain terá sido uma montagem, mais ou menos assombrada, de elementos díspares em que a invulgar criatividade artística foi sempre a par de um forte pendor depressivo.

Convenhamos que já assistimos a outros casos em que este tipo de abordagem da intimidade de figuras do mundo do espectáculo gera objectos oportunistas que, através de uma atitude “voyeurista”, reduzem os retratados a marionetas sem alma. Não é o caso de “Cobain: Montage of Heck” que nasce, antes do mais, da vontade de compreender a complexidade de um ser humano.

O filme contou, aliás, com a cumplicidade de Courtney Love, viúva de Cobain, que colocou o seu espólio à disposição de Morgen (ele que é um especialista deste tipo de abordagens, tendo realizado, por exemplo, em 2017, o documentário “Jane”, sobre a cientista Jane Goodall). Daí que encontremos documentos que vão desde filmes da infância de Cobain aos seus desenhos e escritos, passando por tocantes imagens da filha do casal, Frances Bean.

Mais do que uma antologia de canções dos Nirvana (que, obviamente, também são citadas), esta é uma viagem através de um mundo tecido de muitas alegrias e angústias, alheio a qualquer visão fúnebre ou determinista do legado artístico de Kurt Cobain. Nessa medida, é também um belo exemplo da vitalidade do género documental.

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