Cultura

Um verão sem festivais

SBSR, julho de 2019

Graça Costa Pereira

Graça Costa Pereira

Editora de Cultura SIC

A decisão foi tomada no Conselho de Ministros desta quinta-feira. Até 30 de setembro o Governo quer proibir a realização de festivais de música, em Portugal. Não vão realizar-se eventos como o NOS Alive, o Super Bock Super Rock, o MEO Sudoeste ou o Vodafone Paredes de Coura.


Os festivais de verão já tinham sofrido baixas, mas ainda não tinham baixado os braços. O mais recente cancelamento de uma banda veio da parte dos Foals. Os britânicos deveriam atuar no Super Bock Super Rock no dia 18 julho, mas nas redes sociais anunciaram o cancelamento da digressão europeia. No NOS Alive, também agendado para julho, já tinha sido avançada a ausência de Taylor Swift, uma das cabeças-de-cartaz do festival do Passeio Marítimo de Algés. O festival teria lugar entre 8 e 12 de julho. No mundo dos festivais de verão esperava-se por indicações claras e ninguém queria ouvir falar em cancelamentos. Houve até casos, como o do RFM SOMNII que, em plena pandemia continuou a anunciar nomes para o festival da Praia do Relógio, na Figueira da Foz.

As dúvidas são agora dissipadas e os promotores são confrontados com uma nova realidade. Também têm, finalmente, alguma orientação, a que lhes estava a faltar por parte do Governo.

EDP Vilar de Mouros, agosto 2019

EDP Vilar de Mouros, agosto 2019

Com a aprovação da proposta de lei que agora será submetida à apreciação da Assembleia da República, são estabelecidas "medidas excecionais e temporárias de resposta à pandemia da doença Covid-19". Os festivais de música ficam proibidos até dia 30 de setembro. Os promotores que têm vindo a pedir "Adiem-nos, mas não nos cancelem agora" esperavam que esta janela não fosse além de 31 de agosto, alguns apontavam para a possibilidade de 31 de julho e a data de 30 de setembro acaba por apanhar todos de surpresa. A ser aprovada, a proposta de lei deverá abarcar festivais como o F, em Faro e o Santa Casa Alfama, e Lisboa (ambos costumam ter lugar em setembro) e a Festa do Avante, marcada para os dias 4, 5 e 6 setembro, na Quinta da Atalaia, no Seixal.

Da proposta de lei consta a "adoção de um regime de caráter excecional dirigido aos festivais de música que não se possam realizar no lugar, dia ou hora agendados". A medida aplica-se aos espetáculos que deveriam ter-se realizado desde o passado 28 de fevereiro e que não puderam efetivar-se devido ao surto do novo coranavírus. Para estes, prevê-se a "emissão de um vale de igual valor ao preço do bilhete de ingresso pago, garantindo-se os direitos dos consumidores". Os detalhes desta formulação ainda não são conhecidos.

Os promotores dos grandes festivais de verão reuniram-se, na semana passada, com o primeiro-ministro e com os ministros da economia, da saúde e da cultura. Dessa reunião não saiu uma orientação definitiva sobre o cancelamento e/ou adiamento dos eventos que percorrem todo o país e levam milhares de portugueses e turistas estrangeiros aos recintos, em pleno verão. Após o encontro, António Costa partilhou nas redes sociais a vontade que todos têm de um "regresso à normalidade". Mas o primeiro-ministro reforçou, na mesma publicação, a ideia de uma normalidade apenas possível "quando tivermos vacina ou tratamento para a Covid-19".

Rock in Rio Lisboa, 2018

Rock in Rio Lisboa, 2018

O Rock in Rio, representado nesse encontro por Roberta Medina, foi o primeiro a adiar o festival (a decisão foi anunciada ainda antes desta reunião em São Bento) e remeteu a próxima edição para 2021. Mas o Rock in Rio tem uma vantagem sobre todos os outros: em Portugal, realiza-se de dois em dois anos e, ao voltar no próximo ano, não perde uma edição em Lisboa. Assim, o RIR regressa à Bela Vista em 2021 e em 2022 e, depois, retoma a periodicidade a que nos habituou, desde 2004. Para a edição remarcada para os dias 19, 20, 26 e 27 de junho, o festival já confirmou o cartaz de um dos dias, no Palco Mundo: Foo Fighters, The National e Liam Gallagher, que iriam atuar dia 21 do mês que vem, já confirmaram presença no dia 19 de junho de 2021.

O NOS Primavera Sound vê-se agora obrigado a um segundo adiamento. Estava marcado para junho, de 11 a 13, e foi adiado para os dias 3 a 5 de setembro. Com a proposta de lei que saiu do Conselho de Ministros, o festival que se realiza no Parque da Cidade, no Porto e que tinha no cartaz nomes como Tyler, The Creator e Lana Del Rey terá de ser adiado para 2021. Em Espanha, onde o festival tem uma edição anual que acontece antes das datas portuguesas e com um line-up muito semelhante, está marcado para finais de agosto. Como em Portugal, o Primavera Sound da Catalunha iria realizar-se em junho.

Os festivais de verão terão de repensar a estratégia e, este ano, ficam sem efeito. Milhares de pessoas serão afetadas, músicos, técnicos e muitos profissionais do mundo artístico - mas também do turismo - não vão ter trabalho nos próximos meses.

Este verão, não haverá festa no Rock in Rio, no NOS Alive, no SBSR, no Sumol Summer Fest, no RFM SOMNII, no Vodafone Paredes de Coura, no EDP Vilar de Mouros, no MEO Marés Vivas e no NOS Primavera Sound. E em muitos outros recintos de um país habituado a fazer do verão um tempo de música e dos festivais, uma oportunidade de férias.