Cultura

Filmes em quarentena: "Há Festa na Aldeia"

Cartaz original de "Jour de Fête/Há Festa na Aldeia", (1949)

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Foi a longa-metragem de estreia de Jacques Tati, mestre da comédia no interior do cinema clássico francês: “Há Festa na Aldeia” é o retrato carinhoso de um mundo rural que tem ao seu serviço um carteiro especialmente dotado para a velocidade… em bicicleta!

Por mais bizarro que isso possa parecer a um espectador mais jovem, nas décadas de 1950/60/70 um dos nomes mais populares no domínio da comédia era francês: Jacques Tati (1907-1982) conseguiu mesmo um reconhecimento espectacular em Hollywood, a ponto de obter o Óscar de melhor filme estrangeiro com “O Meu Tio” (1958).

Actor e realizador, Tati legou-nos uma obra de puro génio criativo, ainda que com um número reduzido de títulos: apenas seis longas-metragens, a última das quais, “Parade” (1974), produzida para televisão (embora viesse a ser mostrada nas salas escuras). Para quem desconheça o seu trabalho, uma boa porta de entrada poderá ser o seu primeiro filme de fundo, “Há Festa na Aldeia” (1949), em link gratuito disponibilizado pela Leopardo Filmes, através do site da Medeia Filmes (das 12h00 de 9 de maio às 12h00 de 12 de maio).

O Sr. Hulot foi a personagem emblemática que consolidou a popularidade de Tati: um cidadão simpático e inofensivo, sempre surpreendido com a evolução da sociedade de consumo. Estreou-se em 1953, com “As Férias do Sr. Hulot”, reaparecendo em “O Meu Tio”, “Playtime” (1967) e “Sim, Sr. Hulot” (1971). “Há Festa na Aldeia” mostra-nos um Tati pré-Hulot, assumindo a figura de um carteiro do mundo rural que encara a velocidade da sua distribuição (em bicicleta) como um sinal triunfante do progresso das comunicações [video].

“Há Festa na Aldeia” é um descendente directo da nobre tradição do burlesco, quase se organizando como um filme mudo: o som ambiente é tratado com grande requinte, mas os diálogos são minimalistas. O carteiro François apresenta-se, assim, como personagem da mais pura acção física, o que não o impede de se afirmar como símbolo de um mundo em permanente evolução tecnológica.

Há, aqui, uma genuína declaração de amor pela França campestre, em claro contraste com o estilo de vida urbano que ganharia especial evidência nos títulos seguintes de Tati. “Há Festa na Aldeia” é, afinal, um maravilhoso exemplo da alegria e do espírito inventivo de um dos grandes autores clássicos do cinema francês.

Medeia Filmes