Cultura

Sessão de Cinema: “Stalker”

Opinião

"Stalker": um filme baseado num romance dos irmãos Strugatsky

Na filmografia de Andrei Tarkovski, este é um dos exemplos mais complexos e fascinantes da sua demanda existencial: o realismo das imagens conduz-nos aos enigmas do sagrado.

A filmografia de Andrei Tarkovsky (1932-1986) possui uma sedução física e metafísica que há muito transcendeu a época em que foi produzida. “Stalker” (1979), porventura o seu filme mais conhecido ou, pelo menos, mais analisado poderá ser uma boa porta de entrada no seu fascinante universo — está, agora, disponível em streaming.

Aqui encontramos um guia (“stalker”) com a missão de conduzir um professor e um escritor a um domínio — a Zona — que as autoridades governamentais fecharam à população em geral: o primeiro procura elementos para a sua investigação científica, o segundo espera encontrar inspiração para novas narrativas. Além do mais, há quem acredite que na Zona se poderá aceder a um espaço susceptível de satisfazer os desejos dos visitantes.

Com frequência, “Stalker” tem sido interpretado como uma metáfora sobre as formas de controle dos cidadãos pelas autoridades da URSS. E é um facto que a obra de Tarkovski foi alvo da censura estatal, levando-o mesmo a abandonar o país, realizando os seu filmes finais, “Nostalgia” (1983) e “O Sacrifício” (1986), em Itália e na Suécia, respectivamente — faleceu em França, a 29 de dezembro de 1986, contava 54 anos.

Seja como for, “Stalker” é sobretudo uma deambulação poética pelos mistérios da dimensão humana e, em particular, pela possibilidade (ou impossibilidade) de relação com elementos sagrados. O impacto dessa demanda existencial é tanto mais forte quanto Tarkovski consegue gerar uma perturbação, visual e emocional, eventualmente próxima de alguma ficção científica, mas sempre a partir de elementos realistas. A esse propósito, convém não esquecer que “Stalker” se baseia num livro assinado pelos irmãos Arcady e Boris Strugatsky, célebres autores da ficção científica russa.

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