Cultura

Que futuro para James Bond?

Opinião

"Bond, James Bond" — Sean Connery em "Dr. No" (1962), o primeiro da série

Com “007: Sem Tempo para Morrer”, Daniel Craig termina o seu “reinado” como intérprete de James Bond — como conservar ou reinventar o universo do mais célebre agente secreto do mundo?

Não quero sugerir que a vida dos filmes se reduz aos índices de bilheteira — longe disso. Mas também não pretendo ignorar que a dimensão industrial do cinema não é o “outro” lado da criação artística — bem pelo contrário, as duas facetas estão historicamente enredadas e nenhuma é mais “pura” que a outra.

Isto para dizer que o futuro cinematográfico da personagem de James Bond se está a jogar através da sua nova aventura (a meu ver, muito consistente) “007: Sem Tempo para Morrer” — é o 25º título da série e o quinto, e último, protagonizado por Daniel Craig [video: realizador Cary Fukunaga explica a construção da cena de abertura de “007: Sem Tempo para Morrer”].

Consultando o site Box Office Mojo, podemos confirmar que a popularidade do Agente Secreto 007 continua a ser mais forte nos mercados internacionais, sobretudo na Europa, do que nos EUA. Assim, no mercado americano, o filme arrancou com uma receita mediana para um objecto deste tipo e com este grau de promoção (57 milhões de dólares), enquanto nos restantes países tem conseguido números significativos (já acima de 250 milhões). Sem esquecer, importa sublinhar, que o lançamento nos EUA ocorreu cerca de uma semana mais tarde.

Acontece que, para lá dos números, e também através deles, não podemos deixar de pressentir que há um efeito “fora de moda” que, para o melhor ou para o pior, não pode deixar de afectar o universo de James Bond. De facto, ele não é um super-herói, não desfrutando da protecção promocional e da evidência mediática que, hoje em dia, acompanha quase todas as produções do género (infelizmente, muitas delas reduzidas a uma colagem arbitrária de efeitos especiais e argumentos sem imaginação).

Criado por Ian Fleming na década de 1950, James Bond pertence a outro universo simbólico e escusado será lembrar que a matéria nuclear das suas histórias, nos livros e nos filmes, envolve os sinais de uma conjuntura “antiga”: a Guerra Fria. Além do mais, em 1962, quando surgiu o primeiro “Bond movie” — “Dr. No / Agente Secreto 007”, de Terence Young, com Sean Connery — o mundo do cinema era, obviamente, profundamente diferente. Desde logo porque não havia plataformas de streaming, nem DVD, nem sequer cassetes de video…

Daí essa dúvida, essa pergunta, de uma só vez conceptual e comercial, dramática e simbólica, que “007: Sem Tempo para Morrer” deixa em aberto: como será possível reinventar o universo Bond? A escolha de um novo intérprete será, por certo, decisiva para a formulação de qualquer resposta. Mas será preciso saber também que histórias se vão contar e que valores de “entertainment” tais histórias podem conservar ou inventar.