Cultura

“Madame X”: música, cinema & etc

Opinião

Madonna como "Madame X": um "filme-concerto" em forma de teatro

Em grande parte rodado em Lisboa, o filme da última digressão de Madonna é um espectáculo exuberante e multifacetado, entre os telediscos e o teatro.

Apresentado na MTV, depois disponibilizado para os assinantes da Paramount+, o filme “Madame X”, de Madonna, é muito mais do que um mero registo dos concertos de uma digressão. Sem esquecer que se trata, no essencial, do resultado de filmagens efectuadas em Lisboa, no Coliseu dos Recreios (em janeiro de 2020) — evocando, naturalmente, o tempo durante o qual Madonna viveu em Portugal.

De facto, a relação da Material Girl com as imagens sempre teve dois vectores essenciais: os telediscos, desde os tempos heróicos da MTV, e o cinema que, para ela, funciona como uma espécie de espelho crítico e auto-crítico — recorde-se o caso exemplar de “Na Cama com Madonna” (1991), realizado por Alek Keshishian, que continua a funcionar como uma confissão que se transfigura em subtil desmontagem dos equívocos da fama.

Estamos agora perante uma experiência que podemos classificar como mais teatral. Isto porque foi com a digressão de “Madame X” que Madonna arriscou encenar-se, e reencenar-se, não no gigantismo dos estádios, mas em salas mais “acanhadas” — e o Coliseu acolhe, como um luva, essa assumida teatralidade.

Assistimos a uma verdadeira celebração estética e temática em que a afirmação individual no presente se confunde com uma revisitação do seu próprio património artístico. Assim, o filme existe como um objecto híbrido em que aquilo que vemos no ecrã não é uma banal “transcrição” do que aconteceu no palco, antes um cruzamento sistemático desse acontecimento com a colecção das imagens videográficas de Madonna, tudo sintetizado através de uma sofisticada “mise en scène” dos elementos específicos do concerto — incluindo, a certa altura, o guitarrista Gaspar Varela.

O quadro da canção “Batuka”, com um grupo de batucadeiras de Cabo Verde, pode servir de exuberante ilustração dessa capacidade de síntese. Sem se impor como centro da própria performance, Madonna surge integrada numa coreografia em que, através de uma admirável montagem, os elementos do concerto vão mantendo um ziguezague formal com as imagens do teledisco da canção.

Para a história dos “filmes-concerto”, “Madame X” ficará como uma referência modelar de um conceito de “entertainment” que não confunde o aparato técnico com o prazer do espectáculo. Só é pena que a lógica destes tempos não nos permita ver “Madame X” no lugar que, por certo, valorizaria ainda mais toda a sua riqueza de concepção e encenação. Que é como quem diz: um grande ecrã de uma sala de cinema.