Cultura

João Botelho na Cinemateca: uma (re)descoberta

João Botelho na Cinemateca: uma (re)descoberta
Cláudio da Silva em "Um Filme em Forma de Assim" (2022), de João Botelho
João Botelho assinou a sua primeira longa-metragem, “Conversa Acabada”, em 1981 — em setembro, a Cinemateca dedica-lhe uma retrospectiva.

Ao longo do mês de setembro, a obra de João Botelho vai estar em destaque na Cinemateca Portuguesa: na sala da rua Barata Salgueiro, em Lisboa, vai ser possível ver ou rever os seus filmes, em paralelo com uma pequena colecção, sob a designação “Carta Branca”, com alguns títulos que Botelho considera vitais para a sua formação.

Da primeira longa-metragem, “Conversa Acabada” (1981), à mais recente, “Um Filme em Forma de Assim” (estreado já este ano), Botelho manteve-se como um autor sempre próximo da escrita, prosa ou poesia — no primeiro destes títulos, revisita a correspondência entre Fernando Pessoa e Mário se Sá-Carneiro; no segundo, a inspiração provém da obra de Alexandre O’Neill.

Em todo caso, convém não ceder ao lugar-comum que, em situações deste género, tende a aplicar o rótulo de “cinema-literário”. Sem esquecer, claro, que Botelho adaptou também, por exemplo, Almeida Garrett (“Quem És Tu?”, 2001), Agustina Bessa-Luís (“A Corte do Norte”, 2008) ou Eça de Queirós (“Os Maias: Cenas da Vida Romântica”, 2014).

A matéria literária é, afinal, para Botelho, um instrumento de mediação. Para quê? Para estabelecer uma relação com a própria história capaz de escapar às convenções correntes de abordagem dessa mesma história (colectiva ou individual). O título da retrospectiva tem tanto de sugestivo como de revelador: “Os filmes são histórias, o cinema é a maneira de as filmar”.

Os filmes escolhidos para a “Carta Branca” são também, certamente, reveladores dessa vontade e da sua agilidade. Aí encontramos desde um pioneiro como David W. Griffith (“As Duas Tormentas”, 1920) até à experimentação do cinema sobre o cinema com Jean-Luc Godard (“Paixão”, 1982), passando por grandes inventores de narrativas como Alfred Hitchcock (“Intriga Internacional”, 1959, cujo trailer se recorda aqui em baixo).

Em resumo, esta é uma excelente oportunidade para conhecer e discutir uma trajectória de invulgar exigência formal: pensando muitos temas da identidade portuguesa, nela encontramos uma obstinada reflexão sobre a história global do próprio cinema. O próprio João Botelho estará na esplanada da Cinemateca para uma conversa sobre essa trajectória — será no dia 26 de setembro, às 18h00.

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