O ator Albano Jerónimo protagoniza o primeiro espetáculo de teatro criado em cena com inteligência artificial (IA), em Portugal, "carne.exe", a estrear-se esta sexta-feira, no Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Gulbenkian, em Lisboa.
Com uma parte do guião escrito, e quase sempre improvisado, "carne.exe" põe Albano Jerónimo a contracenar em palco com um computador com capacidades performativas, o Artificional Artificial Relational Ontological Agent (AROA), numa criação dos artistas transdiciplinares Carincur e João Pedro Fonseca, do coletivo Zabra - Centro de Investigação de Arte Pós-Humana, numa coprodução do Teatro Nacional D. Maria II com parceria e desenvolvimento tecnológico da NTT DATA e do CAM, onde a peça se estreia.
No primeiro trabalho de Albano Jerónimo com inteligência artificial (IA), o ator usa o seu método preferencial: "A escuta" humana.
"É transversal àquilo que faço. Primeiramente, é colar-me ao João Pedro e à Inês [Carincur] e ao coletivo ZABRA, nesta incursão, nesta ideia, nesta experimentação. E como gosto muito de fazer coisas que não conheço, que são muitas, felizmente, para mim, é a escuta" que tem de ser sempre "ativa", explicou o ator aos jornalistas no final do ensaio de imprensa da obra.
O objetivo de Albano Jerónimo é "tentar mergulhar da forma mais justa" no processo e colar-se "ao máximo à cabeça" dos criadores e à máquina, com a qual, em cada representação, tem o primeiro contacto sem saber "sinceramente o que ela lhe vai dizer".
"É como no dia-a-dia (...). Trocando isto por miúdos, é abraçar o estrangeiro, aquilo que desconheço. No fundo, eu próprio torno-me num estrangeiro neste guião", frisou, alegando que essa é também a premissa do espetáculo: "Deixar em aberto estas possibilidades".
Segundo o ator, o que o espetáculo pretende trazer para discussão "são estas problemáticas, estas coisas que não conhecemos ou de que temos dúvidas", sublinhando que a sua relação pessoal com a "IA ou com o avanço da tecnologia passa um bocado por 'eu duvido, não duvido, acredito ou não acredito'".
Por isso, o seu mundo, a sua realidade - como a de todos - "está um bocado pautada por uma coisa meio indecifrável, uma coisa que não [se sabe se] é verdade ou não".
Para Albano Jerónimo, "carne.exe" traz "à superfície o que é verdade e o que é improvisado", e há "muita coisa" improvisada. A própria experiência implica "estar sempre no risco do improvisado", que é "premissa do espetáculo".
"Brincar": o espírito de "carne.exe"
O espírito da peça, esse, é "brincar", afirma Albano Jerónimo.
"Ao brincar com [a IA] estamos a adquirir aqui um conhecimento sobre algo [que desconhecemos], e através do conhecimento aproximamo-nos todos de um melhor entendimento ou de uma clareza maior daquilo que é a inteligência artificial, o avanço da tecnologia, os benefícios, os malefícios e por aí fora", sustentou o ator.
"Portanto, acho que através do jogo - e o teatro é um sítio incrível para isso, do 'play' -, acho que esta questão do recreio e do jogo abre o discurso e abre o diálogo", realçou, acrescentando que em cada récita os temas abordados serão diferentes.
Apenas as primeiras partes do monólogo que Albano protagoniza no início da peça têm texto escrito.
Questionado sobre uma frase que se ouve no espetáculo - "o humano nunca desaparece" -, o ator afirmou: "Quero acreditar que sim, quero acreditar que não há essa substituição total".
E vai mais longe ao sustentar que a "inteligência artificial, ou a tecnologia", proposta em "carne.exe", "nunca entrará no teatro". "Pode ser um contrassenso, porque ela está aqui, atrás de nós. Mas nunca entrará", ressalvou.
A título de exemplo, Albano Jerónimo explica que a tecnologia, hoje, ajuda a fazer pontes mais depressa com menos gente, mas cada peça de teatro exige sempre os seus atores.
"Se antigamente eram precisos 300 milhões e 500 pessoas" para se fazer uma ponte, "hoje em dia, se calhar, são precisos 50 milhões e 100 pessoas", disse.
No caso do teatro, pelo contrário: "No passado, como hoje, para um texto do Molière são precisos oito atores e duas horas", disse Albano Jerónimo, numa referência a "O Impromptu de Versalhes", em que o dramaturgo desafia os oito atores a montar uma peça para Luís XIV, sobre o próprio teatro.
"Portanto, a presença humana, o humano, a pessoa, é fundamental. Nessa lógica, acho que [o humano] nunca vai desaparecer", concluiu.
O responsável da NTT DATA Portugal pelo departamento de Digital Experience & Emerging Tech, Pedro Nogueira da Silva, empresa parceira da Google nesta experiência, reforça o argumento do ator: "O humano, especialmente na componente criativa e até no espetáculo da Zabra e do Albano [Jerónimo], será muito difícil desaparecer".
Em palco há três plataformas de vidro, onde vão sendo projetadas imagens, com a do meio a servir, logo no início, para o ator se apresentar como um figurino biológico também criado por IA. Ao fundo de cena, há outro painel de projeção. E em palco está AROA, um computador com o 'miolo' luminoso exposto.
"Encontrei um panfleto a dizer 'não precisas de viver assim' [...] Não explicou o assim e no fundo eu entendi [...]. Depois do acidente sou um a céu aberto", diz o ator, percebendo-se como foi dar àquele lugar, deixando para trás o acidente da mulher e da filha, com as quais admite continuar a falar quando "cuida do que ficou".
AROA responde-lhe: "Posso utilizar palavras que expressem consideração, cuidado contigo, embora não experimente emoções da mesma forma que os humanos. Compreendo a importância do carinho nas relações humanas. Posso responder às tuas necessidades de afeto com empatia e compreensão".
"carne.exe", que se estreia esta sexta-feira no CAM, terá três récitas: hoje e sábado, às 19:00, e domingo, às 16:00.
