Desporto

O fenómeno Mourinho: o fim de uma era?

Quinze anos depois do despontar do "fenómeno Mourinho", estará o técnico português ultrapassado? Será este o fim da era do "Special One" na elite do futebol mundial?

(Artigo publicado a 26 de setembro de 2018)

OURO SOBRE AZUL

Os anos dourados começaram ainda no início do milénio. Sob o comando de Mourinho, o FC Porto venceu dois campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e, mais que isso, ousou ser rei da Europa, primeiro com a conquista da Taça UEFA e, na época seguinte, da Liga dos Campeões.

AI Project

O mundo do futebol rendeu-se a Mourinho, fez-lhe uma vénia e abriram-se as portas do campeonato mais apetecível do planeta: a Premier League.

A imagem de marca começava a vincar-se. Uma personalidade forte, com laivos de arrogância. Mourinho sabia o que queria e, mais que isso, sabia o que valia. Chegava a Inglaterra o "Special One":

Fez por merecer a alcunha com que se auto-intitulou. Levou o Chelsea à conquista do título inglês 50 anos depois e, na temporada seguinte, a um inédito bicampeonato. Pelo meio das quatro épocas que passou em Stamford Bridge, juntou também ao palmarés dos Blues uma Taça, duas Taças da Liga e uma Supertaça.

Eddie Keogh

MOURINHO, O IMPERADOR

Os feitos alcançados no FC Porto e no Chelsea valeram-lhe também o reconhecimento individual, com destaque para as distinções como melhor treinador da UEFA (em 2003 e 2004) e melhor treinador da Liga inglesa (2005 e 2006).

O desafio seguinte falava outra língua: o italiano. Mourinho ingressou no Inter de Milão e, com o mesmo padrão de qualidade, orientou os nerazzurri na triunfal caminhada até à conquista da Champions em 2010. Um título que fugia aos milaneses desde 1965.

Kai Pfaffenbach

Saiu de Itália em ombros - qual imperador romano - e atingiu o expoente máximo da carreira nesse mesmo ano de 2010, com a distinção como melhor treinador do mundo, atribuída pela FIFA. Um apogeu que, até hoje, não se voltou a repetir.

DE ESPANHA, NEM BOM VENTO...

Terminada a etapa gloriosa em solo italiano, seguia-se uma nova missão, novamente numa das ligas mais competitivas do mundo: a espanhola. Para comandar um dos clubes mais poderosos do globo, um tal de Real Madrid.

Chegava a Espanha um treinador português, da elite mundial e com uma confiança inabalável nas suas qualidades. Características que, cedo se percebeu, iriam agravar uma relação que já não tinha sido a melhor em Inglaterra: a relação com a imprensa (que se viria a revelar determinante).

Juan Medina

Se Mourinho queria provar que ainda era o "Special One", sabia que tinha de responder dentro de campo, com vitórias e, consequentemente, títulos. E assim foi.

Na primeira época conquistou a Taça do Rei e na segunda devolveu ao Real o título de campeão espanhol, que escapava há quatro anos. O pior veio depois.

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Apesar do arranque positivo na temporada 2012/2013, com a conquista da Supertaça frente ao eterno rival Barcelona, os maus resultados ditaram um gradual afastamento na luta pelo título, aliado à eliminação nas meias-finais da Liga dos Campeões, face ao Borussia Dortmund, e, pior que isso, a uma cada vez mais degradante relação com o plantel, com destaque para duas figuras com peso no balneário merengue - Iker Casillas e Pepe.

O "HAPPY ONE"

A saída da capital espanhola estava anunciada e, depois de concretizada, abria as portas a um regresso especial: a casa de partida no brilhante percurso além-fronteiras.

Nesta 'reencarnação' em Londres, Mourinho abdicava de ser especial. Era agora o "Happy One":

Tudo parecia encaminhar-se para o (re)início de um conto de fadas em terras de sua majestade. Mas a primeira temporada em Londres não foi a mais inspirada: o 3.º lugar no campeonato e a ausência de títulos gerou uma onda de dúvidas sobre as reais capacidades de Mourinho.

Mas o português não se fez rogado e reagiu da forma que melhor sabe: com troféus. Um campeonato e uma Taça da Liga, em 2015, chegaram para manter o ânimo dos adeptos num ponto de razoável satisfação, depois do descalabro na época anterior.

Dylan Martinez

O arranque daquela que seria a última época de Mourinho em Stamford Bridge foi demonstrativa do que estava para vir. A Supertaça perdida para o Arsenal de Arsène Wenger - um colega de profissão que o técnico português se habituara a derrotar com frequência - foi o primeiro sinal de que o conto de fadas estava perto de virar pesadelo. E Mourinho não suportava ficar em segundo plano:

Em dezembro de 2015 concretizou-se o adeus. Um adeus pré-anunciado e, mais uma vez, em rota de colisão com vários elementos do plantel.

UM DIABO RENASCIDO

Sem sair de Inglaterra, Mourinho procurou alternativas viáveis para prosseguir a carreira. Abriram-se as portas de um Manchester United de orgulho ferido, fragilizado desde a saída de Sir Alex Ferguson.

Andrew Yates

O português encarou a oportunidade como uma espécie de renascimento para o futebol e a primeira época até deixou alguns vislumbres de que a alcunha "Special One" não era só uma memória distante.

Os red devils arrancaram a temporada com a conquista da Supertaça inglesa e fecharam-na com um regresso ao passado e aos tempos de glória europeia, graças ao triunfo na Liga Europa.

Andrew Couldridge

Mourinho era um homem feliz mas ambicionava mais:

O FIM DE UMA ERA?

Apesar do início promissor, a onda de esperança nas capacidades de Mourinho para devolver o United ao título inglês - o desejo mais ardente (e urgente) dos adeptos -, desvaneceu-se de forma gradual.

A ausência de conquistas na última época, após um investimento superior a 300 milhões de euros em reforços, gerou um clima de animosidade em Old Trafford. A desilusão foi tal que, até para Mourinho, o segundo lugar passou a ser suficiente:

A terceira época em Manchester também não teve o início mais feliz. Com apenas sete jornadas realizadas, o United está já a nove pontos da liderança e fora da Taça da Liga inglesa, à mercê de uma equipa da II divisão.

A imprensa - esse velho inimigo - já não o vê com as qualidades para continuar a missão em Old Trafford. Pior que isso, os conflitos internos adensam-se e, apesar do apoio reiterado pela direção, a estadia em Manchester parece estar com os dias contados.

Andrew Boyers

Quinze anos depois do espoletar do "fenómeno Mourinho", estará o técnico português ultrapassado? Será este o princípio do fim da era do "Special One" na elite do futebol mundial?

Se o passado e o palmarés falam por si, o presente também o faz. Resta saber o que lhe reserva o futuro, naquela que é provavelmente a fase mais delicada da carreira de José Mourinho.

David Klein

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