Desporto

"Se meter os pés numa prisão portuguesa, não vou sair de lá vivo"

Em entrevista ao Der Spiegel, o hacker português falou sobre o caso Doyen, o Benfica e Cristiano Ronaldo. Confessou ainda que não queria ser julgado em Portugal e que tinha medo do que os adeptos do Benfica lhe podiam vir a fazer.

O hacker português Rui Pinto falou pela primeira vez aos jornalistas, desde que foi detido na Hungria. A entrevista foi feita pelo Der Spiegel, em conjunto com o Mediapart e o NDR.

Nos últimos três anos, Rui Pinto entregou mais de 70 milhões de documentos ao Der Spiegel, que partilhou com o consórcio de jornalismo EIC (European Investigative Collaborations).

Agora, em prisão domiciliar, aceitou falar com a revista alemã, que o questionou sobre se se considerava um hacker. Rui Pinto negou e disse que era apenas "um cidadão que agiu em nome do interesse do público".

A Doyen

O português negou ter chantageado a Doyen Sports e cometido algum crime. Revelou que só contactou com a Doyen para confirmar as "as suas ações ilícitas", "baseado na quantidade de dinheiro que estavam preparados a pagar para fazer com que as revelações desaparecessem".

Recusou que se tratasse de chantagem e defendeu que só queria saber o quão importantes eram os documentos.

Esta semana, o seu advogado, William Bourdom, avançou que a tentativa de extorsão à Doyen Sports "foi apenas uma brincadeira".

O Benfica

Em relação à possível entrega de emails confidenciais do Benfica ao FC Porto, Rui Pinto defendeu que não leu "qualquer declaração das autoridades portugueses que o relacionem com o escândalo no Benfica".

Perante os milhões de documentos que tinha, foram-lhe feitas muitas propostas para vender a informação.

"Uma vez recebi um email anónimo a oferecer-me mais de 500 mil euros. Recusei (as propostas) todas."

Fã de Ronaldo

Rui Pinto assumiu-se como um grade fã de Cristiano Ronaldo, mas alertou para o seu "comportamento fora do campo" e que este deve ser julgado judicialmente.

O hacker recusou-se, no entanto, a falar sobre o alegado caso de violação do jogador português a Kathryn Mayorga, em 2009.

(Arquivo)

(Arquivo)

A vida

Cresceu em Vila Nova de Gaia e, aos quatro anos, já conseguia ler e escrever. Na entrevista, explicou que aprendeu sozinho enquanto via jogos de futebol. Os pais ficaram surpresos com a capacidade do filho, mas o pai não ficou particularmente contente.

"Ele disse-me que eu não devia ser tão fanático por futebol, se não, o jogo acabaria por destruir a minha vida."

Estudou História na Universidade e foi de Erasmus para Budapeste. Quando regressou a Portugal, percebeu que queria voltar à Hungria e acabou por emigrar, não terminando o curso.

A detenção e o julgamento

Rui Pinto foi detido pelas autoridades húngaras a 16 de janeiro. Ao Der Spiegel, contou como a polícia confiscou cerca de 10 terabytes de informações importantes e que podem denunciar muitos crimes. O hacker não quer ser extraditado para Portugal, pois acredita que não terá um julgamento justo no país que o viu crescer,

"A justiça portuguesa não é completamente independente; vais contra muitos interesses escondidos. Como é obvio há procuradores e juízes que levam o seu trabalho a sério. Mas a máfia do futebol está em todo o lado."

Rui Pinto mostrou-se ainda nervoso por possíveis ataques por parte dos adeptos do Benfica. Desde o outono passado, tem vindo a receber ameaças de morte no Facebook.

"Tenho medo de que, se meter os pés numa prisão portuguesa, especialmente em Lisboa, não vou sair de lá vivo"

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