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Carlos Nicolia
Carlos Nicolia
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A violência no desporto (seja física, verbal ou psicológica) é um cancro que deve ser combatido de forma implacável. É preciso que se atue com firmeza. Tolerância zero para essa raça. Chega de ver animais num palco onde só deviam caber pessoa de bem. Isto não é um país de terceiro mundo!

Carlos Nicolia, jogador de hóquei em patins do SL Benfica, fez um desabafo sentido nas suas redes sociais, relativamente a uma situação que, segundo o próprio, não voltará a tolerar.

O argentino afirmou que se sente perseguido por alguns adeptos do FC Porto (segundo ele, os que habitualmente se sentam atrás dos bancos técnicos) de cada vez que a sua equipa joga no pavilhão da equipa azul e branca.

A situação, que diz ser recorrente nas últimas épocas, terá contornos demasiado graves, uma vez que os insultos incidem sobre aspetos extremamente sensíveis da sua vida pessoal: Nicolia é apelidado de "assassino", numa alusão direta à morte da esposa, vítima de doença incurável, pouco antes de chegar a Portugal.

A confirmar-se, o assédio inenarrável que o hoquista vive naqueles episódios não é muito diferente daquele que atinge jogadores, treinadores e árbitros por esse país fora.

No entanto, o seu alerta foi fundamental para que possamos, mais uma vez, refletir sobre o que realmente queremos para o desporto português.

Esta realidade, a da violência no desporto (seja física, verbal ou psicológica) é um cancro que deve ser combatido de forma implacável. A sua erradicação deve ser prioridade máxima na agenda de todos os que têm, por inerência de funções, intervenção direta e indireta na matéria.

O problema, convenhamos, é extremamente difícil de resolver, porque profundamente enraizado em questões de foro cultural e social, mas é preciso levar este caminho para a frente. Isso pressupõe que clubes, associações desportivas e autarquias locais, federações e ligas, poder político e instâncias disciplinares/judiciais deem os passos que a lei lhes permite dar.

Nesta matéria é fundamental que todos remem para o mesmo lado. É fundamental que todos façam a sua quota-parte no sentido de afastar, dos recintos desportivos, todos os primatas que se insistem em mascarar-se de humanos.

A chave, na minha opinião, passa por continuar a implementar medidas preventivas e de sensibilização (sobretudo nas áreas/modalidades referenciadas como sensíveis), reforçando a presença física das autoridades e aplicando castigos exemplares, com a máxima celeridade.

Quem vai a um estádio, a um ringue ou a um pavilhão apenas para insultar, agredir ou criar problemas junto de quem está próximo de si, não pode voltar a entrar num estádio, num ringue ou num pavilhão. É preciso identificar essa gente e expulsá-las de espaços onde são risco elevado para a dignidade do jogo e segurança de todos os que lá estão.

Não há grande ciência nisto. Os tribunais colocam atrás das grades quem comete crimes cá fora.

Os clubes, as sociedades desportivas, têm que ser as primeiras a condenar estas atitudes, banindo esses energúmenos das suas instalações. É preciso coragem para defender o que está certo, mesmo quando o que está certo é difícil de defender.

As autoridades policiais devem continuar a fazer o seu trabalho, mas de forma ainda mais implacável, autuando todos os que infrinjam as regras ou dando ordem de prisão perante crimes que o justifiquem.

Quem tutela o desporto deve continuar a regular no sentido de criar medidas cada vez mais punitivas e penas cada vez mais pesadas.

A mensagem que isso passará será fortíssima.

É preciso que se atue com firmeza. Tolerância zero para essa raça.

Chega de ver animais num palco onde só deviam caber pessoa de bem.

Isto não é um país de terceiro mundo!

O ex-árbitro internacional Duarte Gomes é comentador da SIC e tem um espaço de opinião no site da SIC Notícias.

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