Às 18:30 começa mais um treino no Centro Social da Musgueira.
"A parte inicial é fundamentalmente um quebra gelo. É um primeiro momento em que queremos que elas sintam que vão aprender e que vão crescer connosco, num ambiente tranquilo e sereno, porque não sabemos o que se passou durante o dia e queremos que a parte inicial seja mais descontraída, mas que também as oriente para o que vem a seguir", explica Pedro Rendeiro.
Destes exercícios saem partilhas que nem sempre são boas. A realidade destas raparigas é dura. Algumas moram em bairros sociais, outras em instituições. Com contextos familiares difíceis, entrar em campo é um escape tal como também foi para Pedro Rendeiro.
"A minha base é uma base social também. Eu cresci num bairro social e consegui gerir toda a panóplia que existe naquele contexto para me formar e senti que há três ou quatro pessoas na minha vida que fizeram com que eu conseguisse enveredar pela vida académica e ter ido estudar. Eu gosto de pensar que nós neste tipo de contexto podemos vir a beneficiar de ser uma dessas figuras."
Projeto tenta desenvolver competências sociais
Mais do que as competências futebolísticas este projeto, que chegou a Portugal através da Fundação Sporting, quer ajudar estas raparigas a descobrirem-se enquanto mulheres.
"Estamos a falar de autoconfiança, resiliência, comunicação, liderança para que possam também desafiar qualquer obstáculo que tenham pelo caminho e também a lutarem por terem um futuro pessoal e profissional melhor", sublinha Inês Sêco, coordenadora da Fundação Sporting.
Começaram por ser apenas três, mas agora a equipa já tem 25 jogadoras. A mais nova com 11 e a mais velha com 19 anos. A Inês e a Lara conheceram-se aqui como a maioria das restantes jogadoras. Falam da importância de saber jogar em equipa, respeitar e ouvir os outros, mas também ouvir e reconhecer as críticas.
No final do dia, o sentimento pós treino é que mais importa.
"Ficamos com mais empenho, ficamos mais relaxadas, tivemos um bom jogo e bom treino e nós gostamos de estar aqui. Divertimo-nos com as nossas amigas e gostamos de jogar", conta Inês.
"Os nossos treinadores ensinam-nos muito bem e também jogamos alguns jogos diferentes para nos conhecermos melhor", acrescenta Lara.
Influencer desenvolveu projeto na Venezuela
O projeto nasceu na Venezuela há 13 anos e expandiu-se entretanto para a Colômbia e Estados Unidos. Eglantina Zingg é a fundadora e além de ser apresentadora e ativista, é também uma figura de grande influência na América Latina.
Cresceu no meio da Amazónia Venezuelana e cedo percebeu que o futebol a ligava às outras crianças de qualquer classe social ou género. Pegou nisso e criou este projeto para dar oportunidades a quem não as tem de outra forma.
"Comecei com a ideia de usar o futebol especificamente para as meninas, não era com a ideia de excluir os meninos, mas sim atender a parte da sociedade que não estava atendida, que são as meninas", conta à SIC.
Em Portugal o projeto é piloto e o objetivo é fazer com que mais clubes de Portugal e da Europa se juntem à causa. Através do futebol nivelar o campo das desigualdades.
