Nem por encomenda o Benfica poderia estar a desembrulhar melhor a segunda volta da eleição que se candidata a bater o seu próprio recorde mundial de votantes.
A três dias do sufrágio que levou seis listas a disputar a Direção, um estudo divulgado pelo CIES, Observatório do Futebol, apontava o Seixal como o melhor centro de formação do Mundo, levando em linha de conta quase meia centena (49) de Ligas que serviram de base para o escrutínio, o nível dos clubes em causa, a quantidade de futebolistas originários de cada Academia e o respetivo número de minutos disputados.
O CIES apurou 93 atletas encarnados distribuídos por essas 49 Ligas, total que permitiu superar o Barcelona e o River Plate considerando as variáveis introduzidas para definir a hierarquia. Os catalães não perderam tempo com a "vingança" e, de acordo com uma informação ontem difundida pelo 'Transfermarkt', são os que apresentam a formação mais valiosa, com 295 jogadores a proporcionarem um bolo que ultrapassa os mil milhões de euros (1,3 biliões), à frente de Chelsea (107 jogadores/1,08 biliões) e… Benfica (253/825 milhões).
Para quem se propõe alcançar a presidência das águias, estas notícias de repercussão internacional encaixam como uma luva nos discursos oficiais e na propaganda repetida de forma constante. Do lado de Rui Costa e no que toca a João Noronha Lopes, o que não falta são referências sistemáticas à necessidade de aproveitar mais o talento dos jovens e melhorar as infraestruturas do Benfica Campus.
No papel e nas conversas que se transformam em comícios com os simpatizantes, tudo isto resulta em promessas circunstanciais que vão diretas ao coração de quem vota mas que depois não são explicadas com o devido critério quando há oportunidades soberanas para o fazer.
Sempre que Rui Costa e Noronha estiveram frente a frente, os sócios, no fundo aqueles que por enquanto ainda têm a liberdade de escolha, nunca ficaram esclarecidos sobre as estratégias que os dois homens têm em mente para passar da teoria à prática, ou seja, que medidas concretas propõem para rentabilizar os diamantes que são lapidados na Margem Sul de Lisboa.
XEQUE EM BRANCO
Como é evidente, o grande desafio da rentabilização não passa apenas pela vertente financeira, caso contrário o lucro seria alcançável de um dia para o outro. Conciliar o êxito desportivo com a robustez das finanças representa a chave de uma gestão diferenciadora e o que se tem visto até agora na troca de argumentos entre os candidatos é uma escassa apetência para discutir ideias estruturais no departamento de futebol.
Os líderes das listas que vão concluir a corrida às urnas no próximo sábado resumem os projetos nessa área a duas palavras: José Mourinho. Seja qual for o aspeto relacionado, invariavelmente a resposta repousa no poder de decisão do sucessor de Bruno Lage, a quem Noronha só não reconhece o direito de vetar a nomeação de Pedro Ferreira como diretor-geral.
No debate que também foi transmitido pela SIC Notícias na passada quinta-feira, talvez tenha sido esse o único grande momento do gestor que perdeu há cinco anos as eleições para Luís Filipe Vieira. De forma corajosa, reconheça-se, recusou entregar a "cabeça" do profissional que selecionou para substituir Mário Branco e nesse dossiê revelou uma postura que contrastou com a incapacidade de Rui Costa em se desprender do técnico que lhe rendeu muitos votos a 25 de outubro.
Aliás, o presidente em exercício ainda não foi capaz de criar uma narrativa convincente para justificar a famosa cláusula de 3 milhões de euros imposta pelo Benfica a Mourinho e por… Mourinho ao Benfica. Por esse valor, no final da temporada, qualquer uma das partes pode rescindir o contrato válido até 2027 e se no que respeita à SAD até se entende o montante em questão, no que respeita ao treinador está na cara que o 'Special One' quis acautelar a preço muito razoável a possibilidade de render Roberto Martínez mal termine o Campeonato do Mundo na América.
Por outras palavras, o projeto do Benfica é o mesmo de Pedro Proença, talvez já a figura mais "odiada" no universo benfiquista apesar de se arriscar a bater todos os recordes no vermelho em julho de 2026.
Bastar-lhe-á consumar nessa altura a "chicotada" que estava prevista antes da final da Liga das Nações. Em Munique, a vitória de Portugal que deu direito a uma segunda volta para Martínez é que não estava na encomenda.

