Economia

Trigo atinge valor recorde após Índia embargar exportações

17.05.2022 07:56

FILE PHOTO: Ears of wheat are seen in a field near the village of Hrebeni in Kyiv region, Ukraine July 17, 2020. Picture taken July 17, 2020. REUTERS/Valentyn Ogirenko//File Photo

O país é o segundo produtor mundial de trigo

A cotação do trigo fechou na segunda-feira em níveis inéditos no mercado europeu, depois de a Índia anunciar um embargo sobre as suas exportações deste cereal.

A cotação do trigo atingiu os 438,25 euros por tonelada no fecho da sessão, um novo recorde para este cereal que já se transacionava a níveis elevados, no seguimento da invasão russa da Ucrânia.

“É um recorde absoluto na Euronext. O recorde anterior era de 7 de março último, de 422,50 dólares por tonelada no fecho”, declarou o corretor Damien Vercambre, da Inter-Courtage, à AFP.

Segundo produtor mundial de trigo, a Índia anunciou no sábado que ia interditar as suas exportações deste cereal, perante a baixa da sua produção devida nomeadamente a vagas extremas de calor.

Uma decisão que vai “agravar a crise” a nível mundial

Nova Deli, que se tinha comprometido a fornecer trigo aos países frágeis dependentes das importações vindas da Ucrânia, quer assegurar a “segurança alimentar” da sua população de 1,4 mil milhões de pessoas.

Decisão esta que vai “agravar a crise” de aprovisionamento em cereais a nível mundial, alarmou-se no sábado o G7.

Contudo, durante uma deslocação à Europa, no início de maio, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, tinha declarado, ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, que estava determinado “a responder de forma coordenada e multilateral ao risco de agravação da crise alimentar, devido ao conflito na Ucrânia”.

“Os contratos já assinados devem ser respeitados”

A subida das cotações reflete também a incerteza quanto às intenções de Nova Deli:

“Os contratos já assinados devem ser respeitados, mas não se sabe o que vai acontecer a uma entrega de 500 mil toneladas de trigo ao Egito, que está a ser negociada”, indicou Damien Vercambre, durante a abertura da sessão no Euronext.

Esta decisão de proibição é atribuída a estimativas de colheitas abaixo, em cerca de cinco por cento, das 109 milhões de toneladas colhidas em 2021, mas não só.

“Ao contrário da Federação Russa, que tem em vigor desde há anos um sistema de quotas e taxas sobre as exportações, a Índia tem mais problemas a controlar os volumes exportados”, com numerosos produtores a trocarem os operadores públicos em benefício de compradores privados, que pagam mais pelo cereal, explicou Damien Vercambre.

Nos mercados mundiais, o choque é tanto maior quanto a Índia estava a aumentar a sua importância neste mercado: depois de ter exportado sete milhões de toneladas em 2021, apontava agora para 10 milhões, o que aparecia a amenizar a redução das exportações ucranianas.

Preço do trigo aumentou 40% desde o início da invasão russa da Ucrânia

Com efeito, a crise do subcontinente acontece em muito mau momento, uma vez que a Ucrânia, que estava em vias de se tornar o terceiro exportador mundial de trigo, deve ter a sua produção amputada em um terço segundo as previsões do Departamento da Agricultura dos EUA, que estima a capacidade de exportação ucraniana em 2022 limitada a 10 milhões de toneladas, o que compara com 19 milhões no ano passado.

O preço do trigo aumentou em 40% desde o início da invasão russa da Ucrânia, incorporando também os riscos atuais de seca no sul dos EUA e Europa Ocidental.

Enquanto o conflito causado pela Federação Russa na Ucrânia se arrasta e se aguardam as colheitas australianas e canadianas, a promessa do trigo indiano, em fase de colheita, tinha aliviado um pouco os mercados, em particular no Médio Oriente e Ásia, clientes tradicionais da Índia.

Esta proibição indiana sobre o trigo, que se soma à da Indonésia sobre o óleo de palma, em nome da soberania alimentar, promete aumentar a pressão em países importadores, como Marrocos, cuja produção de cereais vai baixar mais de 60%, ou o Iraque, onde a falta de água provocou a redução em mais de metade as superfícies cultivadas.

Para os observadores do mercado, os preços vão continuar sustentados, porque “a procura continua a existir”.

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