Chernobyl

35 anos de Chernobyl. Da era dourada da energia nuclear à estagnação pelo medo

Exclusivo Online

Canva

A energia nuclear era vista como o futuro. O investimento em centrais espalhava-se pelo mundo, até que o acidente de Chernobyl colocou um travão no crescimento. 35 anos depois, será que o setor da energia nuclear recuperou do trauma?

A palavra nuclear sempre teve uma conotação pesada: faz lembrar as bombas de Nagazaki e Hiroshima e traz consigo o perigo da radioatividade. Chernobyl veio trazer mais um peso à história da energia nuclear e colocar em stand by um setor que estava a crescer exponencialmente.

A energia nuclear começa com a fissão do núcleo atómico de determinados elementos químicos, uma reação física que liberta uma enorme quantidade de energia. Esta descoberta – que incluiu o trabalho de um enorme conjunto de cientistas ao longo dos tempos – levou a dois caminhos completamente diferentes: primeiro a construção da bomba atómica, que devastou as cidades de Nagasaki e de Hiroshima, no Japão, e a produção de energia elétrica através de reatores nucleares.

Canva

O primeiro reator nuclear a ser utilizado com intuito produzir de energia elétrica de forma comercial foi desenvolvido nos Estados Unidos e operou entre 1960 e 1992. Em plena Guerra Fria, a União Soviética estava mesmo atrás na corrida ao nuclear e as primeiras centrais foram autorizadas poucos anos depois, em 1964.

“A física nuclear estava na moda”, lembra Carlos Fiolhais, professor de Física Teórica na Universidade de Coimbra e especialista em História da Ciência. “Havia a ideia um bocado utópica – visto a partir de agora – de que o nuclear ia ser o futuro do mundo. Eu vivi esse tempo. Quando estava a estudar física havia uma imagem positiva do nuclear e de que o mundo ia ser cada vez mais energético.”

Entre 1970 e 1989 (três anos depois do acidente de Chernobyl), o número de reatores em operação no mundo passou de 84 para 420, segundo dados da Associação Mundial de Nuclear. A partir daí, a linha fica praticamente estagnada até aos dias de hoje: em 2020 havia 441 reatores nucleares em atividade em 32 países – o que corresponde a 10% da energia elétrica produzida a nível mundial.

Depois do acidente, as encomendas para a construção de reatores nucleares, que tinham sido realizadas durante a década 70, foram canceladas. Os preços do urânio caíram e deixaram de aparecer novos planos para a construções de centrais. Este interregno durou cerca dez anos.

A terceira geração de reatores

O aparecimento de um novo reator de terceira geração, no Japão, foi visto como um primeiro passo para reavivar o setor, até aqui estagnado. Nesta nova geração, a segurança é uma das prioridades.

“As sociedades ocidentais não querem riscos de natureza nenhuma. E foram acordadas consciências para criar uma nova geração de reatores que fosse intrinsecamente segura. Nasceu a terceira geração dos reatores nucleares”, explica Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação e especialista em energia. “Isso criou também, ao nível da Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, na sigla inglesa), uma série de exigências muito apertadas sobre a forma como operar estes reatores", acrescenta.

Para Carlos Fiolhais, os acidentes – por mais trágicos que sejam – “têm de ser lições”. Na sequência de um acidente como o de Chernobyl, as normas de segurança são alteradas para acautelar todas as situações que levaram ao mau funcionamento do reator e tornar praticamente impossível que estas se repitam. O mesmo aconteceu, por exemplo, na aviação: o caso do ataque terrorista do 11 de setembro de 2001 às torres gémeas, nos Estados Unidos, mudou completamente o paradigma da segurança aérea a nível mundial.

“Nós aprendemos com os erros. Porque esses desastres, na maior parte dos casos, é insuficiência de conhecimento ou mesmo falha humana. Em Chernobyl deve ter havido as duas coisas. Porque, normalmente, os grandes acidentes são conjugações de várias fatores e são extremamente improváveis”, explica.

Canva

Na Europa, foram estipuladas várias diretivas para regular a produção de energia através do nuclear. Os principais requisitos de segurança, que foram sendo atualizados nas últimas três décadas, impõem limites, níveis e condições de operação. É também requerido, entre outras normas, a existência de um plano de emergência interno, assim como a formação e treino adequado de todos os trabalhadores da instalação.

Mesmo com as novas normas, o medo de uma repetição de Chernobyl fez com que os países adiassem os investimentos nesta tecnologia. E as populações – que em parte já se manifestavam contra o nuclear – ganharam mais um argumento para contestar a construções das centrais. Esta longa paragem foi também um entrave para o regresso. “Demorou muito tempo, ninguém avançou de forma decidida e foi-se perdendo o saber, a tecnologia, as pequenas empresas que ajudam a fazer este tipo de construções”, diz Sampaio Nunes.

Os reatores de terceira geração surgiam, no início dos anos 2000, revestidos pelas novas normas de segurança impostas pela IAEA. Apresentava-se como uma produção elétrica limpa e segura. Vários planos voltaram a aparecer um pouco por todo o mundo, incluindo em Portugal.

Há 49 novos reatores a serem construídos e que deverão iniciar atividade até 2027. Os países orientais – China, Índia, Rússia e Emirados Árabes Unidos – são quem mais está a apostar nesta tecnologia e há apenas quatro países ocidentais que estão a contar construir novos reatores: a Finlândia vai acrescentar um reator a Olkiluoto, o Estados Unidos estão a construir um novo em Voglte, a França vai aumentar a produção em Flamanville e o Reino Unido irá criar dois reatores em Hinkley Point.

“Atualmente há mais centrais a ser construídas do que as que são desmanteladas. A Alemanha está a desmantelar, mas a China e os Estados Unidos estão a construir. Há uma série de países que estão a construir, com certeza com designs melhores e com aperfeiçoamentos”, afirma Carlos Fiolhais.

O crescimento das renováveis

Enquanto a energia nuclear estava parada, crescia o investimento em energias renováveis. Surgia outra preocupação global: o aumento da consciencialização sobre os gases de estufa e as alterações climáticas. A par, aumentava também necessidade energética num mundo que se tornava cada vez mais tecnológico.

A energia hidráulica, eólica ou solar fotovoltaica ganharam protagonismo. Porém, estas formas de produção elétrica apresentam uma desvantagem quando comparadas com o nuclear: não permitem uma produção contínua de energia – as eólicas e as hidráulicas dependem das condições meteorológicas e a solar fotovoltaica não produz durante a noite. Uma vez que a fissão nuclear é uma reação física em cadeia, a produção de eletricidade nas centrais nucleares não está dependente de fatores externos.

“Com o risco das ameaças da mudança climática e com o risco derivado da produção de gases de estufa, criaram-se condições para o renascimento da energia nuclear. Esse renascimento estava completamente lançado e Fukushima foi o balde de água fria que fez parar todos esses projetos”, afirma Sampaio Nunes.

Canva

Frota de reatores está a envelhecer

A vida de uma central nuclear ronda entre 25 e 40 anos de atividade, segundo os planos originalmente desenvolvidos. Uma grande parte dos reatores nucleares que estão ainda em operação é anterior ao acidente de Chernobyl, que comemora este ano o 35.º aniversário.

“A nossa frota de reatores está a envelhecer muito, é preciso renová-la. Se não, começa a ter problemas de segurança”, alerta Sampaio Nunes.

Isso não implica necessariamente que os reatores têm de ser substituídos de raiz. A Comissão Regulatória do Nuclear para o Estados Unidos tem vindo a conceder licenças para estender o período funcionamento das centrais nucleares, mediante a realização de obras de requalificação da central. Estas manutenções incluem a substituição dos equipamentos gastos e a atualização dos sistemas de controlo, conforme os procedimentos de segurança em vigor. Feito o investimento de requalificação, a licença poderá estender-se até 60 anos. O mesmo acontece noutros países, como é o caso, por exemplo, da França e da Rússia.

Segundo uma análise feita pela Associação Mundial de Nuclear, o número de reatores que entre 1999 e 2019 foram desativados por terem atingido o fim de vida corresponde ao número de novos reatores que começaram a funcionar. Foram inativados 99 reatores e começaram a operar outros 99.

Para o futuro, a diferença já é positiva: até 2040 está previsto o encerramento de 154 reatores, segundo um relatório publicado em 2019, enquanto as estimativas avançam o aparecimento de 289 novos reatores, seguindo uma visão conservadora da renovação de licenças.