Coronavírus

Covid-19 revela desigualdades raciais nos EUA

Kathleen Flynn

As autoridades de saúde pública estão preocupadas com o que se vem revelando uma considerável desproporcionalidade no impacto sobre negros e brancos, principalmente em cidades como Nova Orleães, Chicago e Detroit.

Especial Coronavírus

Do tanto que se tem investigado, e escrito, sobre o coronavírus, há uma mensagem que é transversal. Não escolhe género, idade ou estrato social. O coronavírus pode infetar qualquer pessoa.

Nos Estados Unidos, Andrew Cuomo, governador de Nova Iorque, chamou-lhe "o grande equalizador".

Mas, à medida que a curva de contágio cresce, os dados registados naquele país vêm contrariando a teoria.

As autoridades de saúde pública estão preocupadas com o que se vem revelando uma considerável desproporcionalidade no impacto sobre negros e brancos, principalmente em cidades como Nova Orleães, Chicago e Detroit, onde estão concentradas as maiores comunidades de afro-americanos.

No Louisiana, com o quarto maior número de casos identificados no país, por exemplo, a maioria das mortes por Covid-19 teve lugar em Nova Orleães, onde os negros constituem 60% da população.

Um desequilíbrio crescente que também tem sido possível verificar nas cidades do centro-oeste como Detroit, Chicago e Milwaukee.

Numa conferência de imprensa, esta semana, o governador do estado admitiu que mais de 70% das vítimas mortais eram afro-americanos. "Isso merece mais atenção e teremos que investigar para ver o que podemos fazer", disse John Bel Edwards.

No caso de Detroit, onde 80% da população é negra, a taxa de mortalidade é responsável por 40% do total de mortes no estado.

De acordo com o The Guardian, que recorre aos números do Instituto de Política Económica, os afro-americanos estão a enfrentar uma maior risco de exposição ao vírus. E uma das explicações residirá no facto de apenas 20% dos trabalhadores negros terem sido elegíveis para trabalhar a partir de casa, contra 30% dos colegas brancos.

Os especialistas apontam ainda para o facto dos americanos negros sofrerem mais de diabetes, hipertensão e obesidade, fatores de risco da Covid-19.

E esse risco cresce ainda mais, alegam, devido às desigualdades raciais na área da saúde. Os afro-americanos são duas vezes mais propensos a não ter seguro de saúde, quando comparados com os colegas brancos, e mais propensos a viver em áreas com maiores carências na assistência médica, onde os cuidados primários são escassos ou caros.

JB Pritkzer, governador do Illinois, reconhece o papel do racismo na resposta do estado à pandemia. Mas, afirma, o problema é "muito mais amplo", pelo que não consegue resolver-se em poucas semanas. "É difícil compensar por décadas, talvez séculos, a desigualdade na assistência médica às pessoas de cor".

Na semana passada, no Congresso, os democratas exigiram ao Centro Norte-Americano para o Controlo de Doenças (CDC) que fornecesse os dados raciais. Sem dados demográficos, as autoridades de saúde e os legisladores não têm como responder às desigualdades nos resultados e testes de saúde, defendem.

O apelo foi reforçado pelo Comité de Advogados de Direitos Civis: "Esta é uma crise sem igual e as autoridades dos nossos governos estaduais e federais desempenham um grande papel se forem transparentes", disse Kristen Clarke, presidente do comité.