Coronavírus

Universitários nos EUA recusam pagar propinas e avançam para a justiça

Rogelio V. Solis

São várias as universidades acusadas de "se aproveitarem" do novo coronavírus, por cobrarem os preços normais aos estudantes enquanto os serviços educacionais foram suspensos.

Especial Coronavírus

Estudantes universitários nos Estados Unidos recusam pagar prestações das propinas durante o período de encerramento das escolas devido à pandemia de covid-19 e avançam com ações judiciais conjuntas contra as instituições de ensino que não reembolsam o pagamento.

São várias as universidades norte-americanas que, encerradas desde meados de março e com propinas de dezenas de milhares de dólares por ano, estão a ser acusadas de "se aproveitarem" do novo coronavírus, por cobrarem os preços normais aos estudantes enquanto os serviços educacionais foram suspensos, as instalações estão fechadas e os gastos com a manutenção são menores.

As universidades do Estado de Michigan, Purdue (em Indiana) e Liberty (na Virgínia) estão a ser processadas em ações judiciais conjuntas dos estudantes.

O Conselho de Regentes de Arizona, supervisor de todas as instituições de ensino do Estado, é alvo de um processo iniciado por um conjunto de pais e um processo dos estudantes está a ser aplicado ao Conselho de Regentes do Colorado.

Um estudante da universidade de Miami (em Ohio) e outro da universidade de Drexel (na Pensilvânia) avançaram com ações judiciais individuais contra estas instituições.

Todos os processos foram iniciados por motivos semelhantes: as instituições continuam a cobrar os mesmos preços em propinas, mensalidades de parques de estacionamento, dormitórios ou acesso aos espaços e centros para estudantes, entre outras taxas, sem que os estudantes possam aceder à educação, confinados e limitados a aulas virtuais.

Os processos legais exigem o reembolso do dinheiro.

Julia Attie é estudante na Universidade privada de Chicago e coorganizadora de uma campanha do grupo UChicago For Fair Tuition, que exige o reembolso ou redução de 50% do valor das propinas do primeiro trimestre para todos os estudantes da universidade.

A Universidade de Chicago integra as 10 melhores universidades do mundo em vários 'rankings', e é uma das mais caras do país, podendo a propina chegar aos 80 mil dólares (73 mil euros) anuais por estudante, segundo Julia Attie, que explica que se trata de um sistema de carga trimestral.

A estudante, que está a frequentar cursos de duas especialidades ('double major'), História e Artes Visuais, paga 20 mil dólares por cada trimestre.

"As propinas eram devidas até 29 de abril, mas atualmente temos centenas de estudantes, inclusive eu própria, comprometidos a não pagar as propinas deste trimestre, ao lado dos muitos estudantes que não vão conseguir pagar, devido à crise financeira", disse Julia Attie em entrevista ao canal ABC.

O grupo UChicago For Fair Tuition realizou uma manifestação na última semana, a 24 de abril, dentro de viaturas automóveis, defronte da residência do reitor da universidade, Robert Zimmer.

"A educação que estamos a receber é muito diferente daquela que as universidades publicitaram" é um dos protestos mais ouvidos da parte de estudantes de todo o país.

Julia Attie acusa também que os recursos da universidade disponíveis na altura da pandemia foram muito reduzidos e tornaram-se "inadequados".

"Não vou ao 'campus', não tenho acesso aos recursos da universidade que tinha normalmente, como a biblioteca. Sou estudante de História e tenho trabalhos a entregar, é um enorme inconveniente. O meu outro 'major' é em Artes Visuais e não tenho acesso a serviços de impressão ou ao estúdio", queixou-se.

Segundo a coorganizadora, a campanha "está disposta a reter as propinas e a partir para novos protestos como uma ação legal coletiva, até conseguir negociação [com a universidade] e atendimento às solicitações".

"Trata-se de ouvir muitos colegas e participantes na campanha dizendo que não conseguem pagar as propinas, ao mesmo tempo que a administração ou serviços de ajuda financeira disseram que não há nada que possam fazer. Achamos que não é correto da parte de uma instituição multimilionária", explicou Julia Attie.

Por outro lado, o grupo presta atenção ao caso de estudantes internacionais que estão a enfrentar dificuldades para pagar as propinas, devido à desvalorização monetária de várias moedas: "Enfrentam decisões de pedir um empréstimo bancário ou desistir da universidade", disse a estudante.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 227 mil mortos e infetou quase 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Os Estados Unidos são o país com mais mortos (60.999) e mais casos de infeção confirmados (mais de um milhão).