Coronavírus

O mistério da "hipóxia silenciosa" na Covid-19: o fenómeno que está a intrigar a comunidade médica

Um profissional de saúde analisa um raio-X feito aos pulmões de um doente com Covid-19 em Paris, França.

Benoit Tessier

Alguns pacientes infetados, aparentemente fora de risco, apresentam níveis perigosamente baixos de oxigénio. Numa situação normal, estariam, no melhor cenário, inconscientes.

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É um mistério para os médicos. Dizem os princípios básicos da biologia que, com níveis tão baixos de oxigénio, o normal seria alguém estar inconsciente, ou perto da morte.

Acontece que alguns pacientes com Covid-19 apresentam níveis severos de hipóxia sem, com isso, revelarem qualquer mal-estar.

Uma pessoa saudável tem uma saturação de oxigénio de pelo menos 95%.

Nestes casos, os níveis chegam a baixar aos 70 ou, em quadros mais drásticos, aos 50% de saturação de oxigénio.

O fenómeno, conhecido como hipóxia feliz, ou silenciosa, está a intrigar a comunidade médica e a levantar questões acerca da forma como o coronavírus ataca os pulmões.

"É intrigante ver tantas pessoas a chegar como elas estão, hipóxicas", disse Jonathan Bannard-Smith, consultor em cuidados intensivos e anestesia, do Manchester Royal Infirmary, ao The Guardian.

“Estamos a ver saturações de oxigénio muito baixas e as pessoas não sabem disso. Normalmente, não vemos esse fenómeno na gripe ou na pneumonia adquirida na comunidade. É um exemplo de fisiologia muito anormal a acontecer diante dos nossos olhos. ”

Mike Charlesworth, anestesista do hospital Wythenshawe, em Manchester, explica que, noutras condições pulmonares, que podem causar hipóxia grave, esses pacientes surgem, normalmente, muito doentes: "Com pneumonia ou embolia pulmonar, eles não ficam sentados na cama a conversar contigo".

“Nós simplesmente não entendemos isto. Não sabemos se está a causar danos aos órgãos que não conseguimos detetar. Não entendemos se o corpo está a compensar", acrescenta.

Um médico analisa os pulmões de um doente infetado pelo coronavírus em Liège, Bélgica

Um médico analisa os pulmões de um doente infetado pelo coronavírus em Liège, Bélgica

Yves Herman

Charlesworth experienciou pessoalmente o fenómeno, quando foi diagnosticado com Covid-19, em março. Depois de ficar doente, com tosse e febre, passou 48 horas na cama.

Durante esse período, revelou sinais de hipóxia.

“Eu estava a enviar mensagens muito estranhas pelo telefone. Eu estava essencialmente a delirar. Ao olhar para trás, vejo que provavelmente deveria ter dado entrada no hospital. Tenho a certeza de que os meus níveis de oxigénio estavam baixos. A minha mulher comentou que os meus lábios estavam muito escuros. Mas eu, provavelmente, estava hipóxico, e meu cérebro, provavelmente, não estava a funcionar muito bem”.

Depois de alguns dias na cama, Charlesworth recuperou. Mas ele, e outros médicos, estão conscientes de que nem todos os casos têm o mesmo desfecho.

Um anestesista de um hospital de Londres, que falou anonimamente ao The Guardian, lembrou-se de uma paciente que chegou às urgências dizendo que estava com frio. "Quando colocamos a sonda de estatísticas, a saturação dela era de 30%", contou.

"Obviamente, pensámos que estava errado, pois geralmente os pacientes tendem a ter paragens cardíacas hipóxicas. Mas quando analisámos uma amostra de sangue, este estava muito escuro e apresentava níveis de oxigénio equivalentes aos observados em pessoas aclimatadas a grandes altitudes". A paciente foi colocada num ventilador e sobreviveu, por cerca de uma semana, antes de morrer. "Tive alguns pacientes assim", revelou o médico.

Médicos estão intrigados com fenómeno da "hipóxia silênciosa"

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Enquanto decorrem uma série de ensaios clínicos para compreender porque é que isto acontece, alguns médicos têm sugerido que, como as pessoas tendem a não se aperceber da queda dos níveis de oxigénio, as que apresentem sintomas de Covid-19, ou tenham testado positivo, recebam oxímetros de pulso, para detetar os níveis de oxigénio em casa.

No entanto, ainda não há evidências de que a deteção precoce da hipóxia ajude mesmo a evitar resultados graves e Charlesworth reconhece que os aspetos práticos desta medida seriam complexos.

"O transporte dos dispositivos colocaria mais pessoas na rua", acredita o médico.

"Depois, há problemas em relação às pessoas que os compram na internet, e se estes [têm certificados de segurança adequados] ... Se você está a precisar monitorizar os seus níveis de oxigénio, é hora de ir ao hospital", alerta Charlesworth.