Coronavírus

Reclusos tentaram contrair o coronavírus para serem libertados

(Arquivo)

Dario Pignatelli

Vídeo mostra grupo de presos a beber água quente da mesma garrafa e a cheirar uma máscara.

Especial Coronavírus

O objectivo era ficarem infetados com o novo coronavírus para que fossem libertados.

Embora não esteja claro se os envolvidos sabiam se alguém estava doente, ao longo do mês de abril, um grupo de detidos no estabelecimento prisional de North em Caistac, na Califórnia, beberam água quente pela mesma garrafa e cheiraram uma máscara.

As imagens, captadas pelas câmaras de videovigilância, foram divulgadas esta segunda-feira pelo departamento do xerife do condado de Los Angeles, Alex Villanueva.

O responsável não conseguia perceber, até aqui, porque é que, em meados de abril, não havia registo de nenhuma infeção na cadeia e pouco depois surgia um surto.

Foi agora descoberta a explicação para o foco de contágio, que afetou 21 detidos em menos de uma semana. Tratava-se de um esforço coordenado para que o grupo ficasse todo infetado e os presos pudessem sair da cadeia.

"É triste pensar que alguém deliberadamente tentou expor-se à Covid-19", disse Villanueva numa conferência de impresa. "De alguma forma, havia uma crença, equivocada, entre a população de presos de que, se eles tivessem um resultado positivo, havia uma maneira de forçar-nos a libertar mais presos - e isso não vai acontecer".

No primeiro vídeo, captado a 26 de abril, é possível ver um preso a encher uma garrafa de um dispensador de água quente, utilizada habitualmente para cozinhar. O detido aproxima-se depois do grupo de cerca de 20 detidos e partilha com eles a garrafa.

Segundo Villanueva, além de tentarem espalhar o vírus entre si, os detidos tentavam manipular as temperaturas do corpo, quando medidas, para simularem ter febre, um dos principais sintomas da Covid-19.

Normalmente, explicou o xerife, os presos “guardam zelosamente” os seus copos de água. E foi isso que levantou suspeitas sobre as imagens captadas.

"Não é algo que eles compartilhem de pessoa para pessoa e quem pratica higiene básica não faz isso de todo", disse Villanueva. "Neste contexto, e considerando o facto de que os 21 testaram positivo, percebemos qual era a intenção deles."

No segundo vídeo, que se acredita ser de meados de abril, é mostrado um pequeno círculo de quatro homens a partilhar o mesmo copo e a respirar profundamente sobre uma máscara compartilhada.

Segundo Villanueva, nenhum dos envolvidos admitiu que se tratava de um esquema para sair mais cedo do estabelecimento prisional. Não se sabe ainda se sofrerão alguma punição.

Alguns críticos têm questionado o facto dos presos estarem sequer em condições de conceber o plano. Lex Steppling, diretor de campanhas e finanças da Dignity and Power Now, uma organização de base que apoia pessoas detidas, sublinhou ainda que a sala mostrada nos vídeos tornava impossível o distanciamento social para os presos.

"A questão maior é: o que eles estavam a fazer naquela sala, em primeiro lugar?", interrogou-se Steppling.

O novo coronavírus continua a infetar reclusos nas prisões americanas a um ritmo impressionante. Uma contagem recente descobriu, no mês passado, mais de 9.400 casos e mais de 140 mortes entre detidos.

O gabinete responsável pelas prisões norte-americanas anunciou então que 70% dos testes a reclusos tiveram um resultado positivo.

No condado de Los Angeles, as cadeias reduziram a sua população de 17 mil para menos de 12 mil desde o início do surto, para ajudar a minimizar a propagação.

Esta segunda-feira, cerca de 4.600 presos continuavam em quarentena, por precaução, disse Villanueva. Quase 2.000 estavam na mesma prisão onde os vídeos foram gravados.

Mas há quem acuse o condado de Los Angeles de estar a falhar para com a população de presos durante a pandemia. No mês passado, várias entidades vieram apontar o dedo à falta de espaço, dentro das prisões, para pôr em prática o distanciamento social.

De acordo com o Los Angeles Times, as acusações prendem-se também com a ausência de testes aos presos que apresentam sintomas da Covid-19.

Patrisse Cullors, ativista, acusou o município de não fornecer sabão suficiente ou forma de os presos se secarem. Para Cullors, as ações de Villanueva durante a pandemia são "uma tentativa de demonizar as pessoas detidas", lê-se no Times.