Coronavírus

Pandemia implica nova arquitetura financeira mundial numa "catástrofe" semelhante à II Guerra

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Defende o Presidente do Gana.

Especial Coronavírus

O Presidente do Gana defendeu esta quinta-feira que as consequências da pandemia da covid-19 implicam a criação de uma nova arquitetura financeira mundial e que a "catástrofe" se assemelha à do final da Segunda Guerra Mundial.

"As instituições de Bretton Woods nasceram para responder a uma catástrofe a seguir à Segunda Guerra Mundial, e hoje estamos numa posição equivalente, mesmo sem ter havido tiros nem bombas", disse Nana Akufo-Addo, salientando que "a devastação trazida pela covid-19 mostra claramente que é preciso uma nova arquitetura financeira internacional".

O papel das matérias primas

Para o Presidente do Gana, que falava durante o debate com o seu homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, durante o Fórum Euro-África, o continente tem de deixar de ser visto apenas como produtor de matérias primas, algo que está a impedir um desenvolvimento económico mais acelerado.

"O acordo de Cotonu parte do princípio que somos apenas exportadores de matérias-primas, e isso tem sido o padrão da relação económica entre a Europa e África desde o tempo colonial, e claramente tem de acabar, temos de ter uma relação com a Europa em que também somos exportadores de produtos com valor acrescentado para o mercado global", defendeu o chefe de Estado ganês.

Essa visão, argumentou, "é uma das razões por que somos incapazes de resolver o desemprego, e daí o constante êxodo de africanos para a Europa através das ilhas gregas, já que as matérias primas não criam riqueza suficiente, é preciso transformar África e o tempo é agora".

O pedido de ajuda

Questionado sobre a ajuda europeia a África, e já depois de o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ter admitido que "é preciso fazer mais", Nana Akufo-Addo admitiu que sim e defendeu um aumento da assistência.

"A ajuda e a cooperação foram positivas, mas precisamos de adicionar volume sobre o nível de ajuda para chegarmos rapidamente ao ponto em que conseguimos reiniciar a nossa atividade e o crescimento das economias", disse, apontando o acordo de livre comércio como um dos instrumentos fundamentais para o desenvolvimento económico.

"Na Europa, 75% do PIB vem das trocas regionais dentro da União Europeia, e em África este valor é de apenas 16%, por isso estes dois números mostram de forma muito simples que o acordo, que deverá entrar em vigor em janeiro, será um veículo com efeito imediato para aumentar a atividade e o desenvolvimento económicos", concluiu o Presidente africano.

O futuro da relação com a UE

O Fórum vai reunir personalidades dos setores público e privado, sociedade civil, empresários, ativistas e cientistas, que vão debater cinco desafios ao abrigo do tema "À procura de pontos comuns num mundo pós-covid".

Os cinco painéis vão debater as "Perspetivas sobre as relações entre a União Africana e a União Europeia", a "Transição Justa da Matriz Energética", "Made In Africa - Negócios Emergentes e em Aceleração", "Cultura África a alimentar o Mundo", e "Ligando os Desligados".

O presidente do Conselho da Diáspora Portuguesa e organizador do Fórum Euro-África, Filipe de Botton, disse à Lusa que o grande objetivo do encontro é reaproximar dois continentes que estiveram de costas voltadas até há pouco tempo.

"Vemos dois continentes gémeos que têm vivido de costas voltadas nos últimos 50 anos, e o grande objetivo do Fórum é conseguir uma reaproximação da Europa com a África, e que Portugal seja a plataforma instrumental para a relação entre os dois continentes", disse Filipe de Botton, na antecipação do Fórum, que se prolonga até sexta-feira, numa parceria com a Câmara de Cascais.

O presidente do Conselho da Diáspora Portuguesa explicou que o encontro foi readaptado "para ser um fórum digital".

"Temos o prazer de ter mais de 3.500 inscritos para assistir, o que demonstra que a junção da plataforma Europa e África era algo que se impunha, já que mais de 70% dos inscritos são provenientes de África", acrescentou.

"Procuramos zonas de entendimento nas relações entre África e a Europa, no primeiro ano falámos da confiança que não existia, depois sobre as parcerias, e agora três grandes pilares, que são a diversidade, as diásporas e as relações políticas, económicas e culturais", concluiu Filipe de Botton.

O Conselho da Diáspora Portuguesa é uma organização privada sem fins lucrativos, com 95 membros em cinco continentes e tem por missão "alavancar o poder da diáspora, de forma a promover conversas e conexões globais sobre assuntos de cultura, impacto social, ciência, negócios e economia", segundo a organização.

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