Coronavírus

Reabertura das escolas: as lições (boas e más) que podemos tirar de outros países

Milhares de alunos portugueses voltam à escola esta semana, depois de seis meses em casa. Não somos capazes de prever o futuro. No pior dos cenários, o início do ano letivo pode dar origem a uma segunda vaga de covid-19 e no melhor dos cenários pode decorrer dentro daquilo que é a nova normalidade. Mas uma coisa podemos fazer: olhar para o que se passa lá fora para perceber o que nos pode ajudar - ou não - por aqui.

Especial Coronavírus

A reabertura das escolas será um dos maiores desafios para a população portuguesa, que tem assistido a um aumento exponencial do número de infetados por covid-19 no país. No meio das dúvidas dos professores, dos encarregados de educação e dos próprios alunos existe uma certeza: é inevitável o surgimento de surtos nos estabelecimentos de ensino.

Muitas escolas alegam ser impossível cumprir todas as normas da Direção-Geral da Saúde, que pede o distanciamento de um metro entre alunos nas salas de aulas, entre outras medidas que exigirão o reforço do pessoal docente e não-docente.

Para a reabertura deve ser seguido um planeamento meticuloso: atualização ou elaboração de um plano de contingência, reorganização do espaço escolar, promoção de comportamentos preventivos, gestão adequada de casos e manutenção de uma comunicação fluída com as autoridades de saúde. Tudo foi deixado nas mãos de quem dirige as escolas.

Nos anos letivos anteriores, muitos estabelecimentos já acusavam a falta de recursos - turmas com muitos alunos, carência de materiais, insuficiência de pessoal. Junta-se agora a este cenário o sentimento de incerteza e de insegurança.

Com base no início do ano letivo noutros países do mundo, olhamos para os sucessos e fracassos da reabertura das escolas.

América

Nos Estados Unidos, 1,8 milhões de estudantes voltaram às aulas no dia 8 de setembro. Várias escolas já tiveram que fechar temporariamente após surtos de covid-19 e outras estão a conseguir manter o número de casos baixo depois de testar todos os alunos.

Os estados norte-americanos são os responsáveis pela definição de medidas para a reabertura das instituições de ensino. Cabe a cada um traçar regras e decidir quando e como abrem as escolas e universidades.

John Jenkins, presidente da Universidade de Notre Dame, que começou a ter aulas online após um aumento nas infeções, disse que o rastreamento de contactos indica que a maioria das infeções vem de encontros fora do campus.

Para conter a propagação do vírus, as escolas têm adotado medidas mais rígidas, incluindo o uso de máscaras faciais e o distanciamento físico, bem como a distribuição de desinfetantes para as mãos e termómetros - normas implementadas em quase todos os outros países.

Quem quebrar as regras pode enfrentar consequências. A Northeastern University, em Massachusetts, expulsou 11 alunos na semana passada por incumprimento das normas e as universidades de Nova Iorque, de Purdue e West Virginia suspenderam estudantes que violaram regras destinadas a conter a propagação do vírus.

Ainda no continente americano, há a registar o caso da Bolívia que decidiu cancelar os últimos meses do ano letivo e retomar as aulas apenas em 2021. No México, as escolas também vão permanecer encerradas e os alunos vão aprender na televisão - uma espécie de telescola.

Tal como nos Estados Unidos, a decisão de como reabrir as escolas no Canadá pode ser diferente de cidade para cidade. Em Toronto, estabeleceu-se que um grupo de alunos estará na escola de manhã e outro grupo de tarde, tal como pode vir a acontecer em Portugal. As escolas primárias nesta cidade costumam ter turmas pequenas o suficiente para garantir o distanciamento social.

Nos últimos dias, registou-se um aumento de casos em todo o país que coincidiu com a abertura de escolas em algumas cidades. Quebec, que abriu as escolas no mês passado, já registou vários casos. Alberta, que reabriu escolas há uma semana, registou 11 casos de covid-19 em onze escolas.

O Brasil, um dos países mais afetados pela pandemia, permitiu a abertura de escolas privadas ainda em agosto. Alguns estados avançaram também com o ano letivo nesse mês, enquanto outros decidiram retomar as aulas apenas em setembro.

Muitas escolas apostaram nas aulas não presenciais e várias cidades não têm data para o regresso ao ensino presencial. Este é mais um dos países que não aposta numa estratégia única e deixa nas mãos de cada município a reabertura dos estabelecimentos de ensino.

A par do Brasil, a Argentina começou no dia 10 de agosto a reabrir algumas escolas a caráter experimental. As escolas reabriram com turmas mais pequenas e a prioridade foi dada a alunos que estão a terminar um ciclo escolar.

Europa

Da Dinamarca chega-nos um exemplo diferente: as escolas fecharam em março, tal como aconteceu noutros países, mas voltaram a abrir logo em abril, quando o número de casos no país tinha diminuído. O país não adotou o uso de máscara obrigatório.

Por exemplo, a escola internacional Esbjerg abriu no dia 16 de abril com as seguintes normas: distanciamento de dois metros entre as mesas e recomendações que incentivavam a lavagem de mãos e o ensino ao ar livre sempre que possível. Os pais não podem entrar no edifício, o número de alunos por turma foi reduzido e foram colocadas cercas temporárias para impedir grandes ajuntamentos no recreio.

A cerca de 700 quilómetros o cenário não é tão animador. Na Alemanha, algumas escolas abriram parcialmente ainda na primavera, mas só agora, após as férias de verão, é que estão a abrir totalmente em todo o país. A região de Mecklemburgo foi a primeira a abrir as escolas, ainda no início de agosto.

Cidades como Berlim, Brandenburg, Schleswig-Holstein e North Rhine-Westphalia seguiram o exemplo na semana seguinte. A experiência inicial não correu como o esperado e no final da primeira semana de regresso às aulas, duas escolas tiveram que ser fechadas devido a infeções. As normas de proteção variam de região para região.

Do norte do continente europeu, chega-nos um exemplo quase único. As escolas na Suécia nunca chegaram a fechar e as regras não mudaram substancialmente. Anders Tegnell, um virologista sueco, acredita que a decisão de manter as escolas e creches abertas não teve uma grande influência nas taxas de infeção.

Em Inglaterra, as escolas primárias reabriram a 1 de junho e as secundárias entre 15 e 18 de junho. Todos os anos voltaram à escola na primeira semana de setembro. Já na Escócia, as escolas reabriram a 11 de agosto.

Uma pesquisa recente sobre as escolas inglesas mostra que 96% dos estabelecimentos estão a dividir as turmas em pequenos grupos ou "bolhas", para que seja assegurada a distância e para minimizar o risco de contágio.

As regras sobre o uso de máscara e outros equipamentos de proteção diferem. Por exemplo, os alunos do ensino secundário são obrigados a usar máscara em espaços comunitários. Na Escócia, é obrigatório o seu uso nas movimentações dentro da escola.

No centro da Europa, há um modelo que pode vir a ser semelhante ao de Portugal. Em França, as escolas reabriram no dia 1 de setembro. Os alunos com mais de 11 anos devem usar máscara. As escolas estão a limitar a mistura de grupos de diferentes anos escolares e a ventilar e a desinfetar as salas de aula.

O ponto curioso deste país é o facto de poder haver uma adaptação nos dias de aulas semanais, isto é, em causa de surgimento de um caso positivo algumas turmas podem ter menos dias de aulas presenciais.

Nos jardins de infância, as crianças não são obrigadas a manter o distancimento social. As escolas primárias podem dividir as aulas em grupos de 8 a 15 alunos, que alternam entre aulas presenciais e virtuais. Nas escolas secundárias, todos os alunos frequentam a escola, pelo menos, alguns dias por semana.

A Grécia adiou o início das aulas para 14 de setembro devido a um aumento nas infeções covid-19. Os professores e alunos serão obrigados a usar máscara nas salas de aula e noutros espaços internos dos estebelecimentos. Cada aluno irá receber uma máscara de tecido.

As escolas italianas têm também o início do ano letivo agendado para dia 14 de setembro, mas as medidas ainda estão a ser finalizadas. Para ajudar no distanciamento social, os horários de entrada serão escalonados e as mesas vão ser individuais. O uso de máscara será obrigatório para quem chega e sai da escola, mas podem ser retiradas durante as aulas desde que seja garantido o distanciamento social.

Algumas escolas secundárias vão optar por usar uma combinação de ensino à distância e ensino presencial. O Governo vai ainda reforçar o transporte público para permitir viagens seguras até às escola. Se um aluno ou professor for infetado, caberá aos diretores e autoridades de saúde decidir se fecham a escola, ou se colocam em quarentena os contactos diretos.

Na Noruega, as escolas reabriram gradualmente a partir de 27 de abril. As crianças não são obrigadas a usar máscaras e o horário escolar permanece praticamente o mesmo. Os alunos da mesma turma não se misturam no recreio com colegas de outras e durante os intervalos cada grupo tem uma área designada para brincar.

As escolas na Polónia reabriram a 1 de setembro, sem o uso de máscara a ser obrigatório. Cada escola decide sobre o uso de máscara nas áreas comuns e sobre o escalonamento do horário escolar.

As escolas primárias e secundárias em cidades como Varsóvia estão lotadas e alguns educadores dizem que será impossível respeitar as regras de distanciamento social. Algumas famílias estão a recusar deixar os filhos ir à escola, mas podem enfrentar uma multa.

No mesmo dia, abriram as escolas na Rússia. Os horários e intervalos são desencontrados para evitar grandes ajuntamentos nas áreas comuns e a verificação de temperatura é feita na entrada da escola. As crianças são aconselhadas a usar máscaras, mas não é obrigatório. A educação online não é oferecida como alternativa.

Na vizinha Espanha, as escolas primárias e secundárias começam o ano letivo em todas as regiões nas primeiras três semanas de setembro. As máscaras nas aulas são obrigatórias para crianças a partir de seis anos e os alunos devem lavar as mãos, pelo menos, cinco vezes ao dia. As verificações de temperatura são feitas todas as manhãs, na escola ou em casa.

África

Depois de dominar o debate público durante as últimas semanas, o regresso às aulas vai mesmo acontecer em Angola e está marcado para 5 de outubro. As atividades letivas presenciais, nas escolas públicas e privadas, vão ser retomadas, de forma gradual: os alunos do ensino básico começam primeiro, os alunos do secundário voltam às salas de aula a 19 de outubro e os da primária retomam no dia 26, segundo avança o Jornal de Angola.

Os ensinos primário e secundário serão divididos em dois turnos, para garantir a presença de apenas metade dos alunos na escola. O uso de máscara é obrigatório em espaços públicos.

O Zimbabué abre as escolas primárias e secundárias, dia 14, para os alunos se prepararem para fazer os exames finais que serão realizados ainda este ano. O Ministério da Educação daquele país já tinha dito anteriormente que daria prioridade aos alunos que realizassem exames finais e deu a entender que os outros estudantes não voltarão à escola até 2021.

Também o Uganda vai reabrir as escolas este ano e os exames que são habitualmente realizados entre novembro e dezembro foram adiados para março de 2021.

Na Namíbia, os estabelecimentos de ensino abriram portas a 7 de setembro. Como acontece noutros países, a reabertura está a ser feita de forma faseada conforme o nível de escolaridade.

Em Marrocos, a abertura das escolas foi adiada por duas semanas em Casablanca, o principal centro económico do país. O início do ano letivo estava marcado para dia 7 mas o aumento exponencial de casos positivos obrigou a um novo confinamento.

Em Cabo Verde, o início do ano letivo foi a 24 de agosto com ensino presencial e ensino à distância. Por considerar a educação presencial importante, a ministra da Educação garantiu que as turmas seriam desdobradas, com um sistema presencial mais alargado, já que as condições físicas e o número de pessoas permitiam o regresso normal às escolas.

No Quénia, as escolas primárias e secundárias vão ficar fechadas até ao final do ano, embora faculdades e outras instituições de ensino superior possam reabrir. Isto significa que os alunos quenianos repetirão um ano, um fenómeno chamado "ano morto".

Na África do Sul, as escolas reabriram em junho, apesar das críticas dos professores. Desde que as escolas foram reabertas em junho, pelo menos 650 alunos e professores tiveram resultados positivos na província de Gauteng, forçando o encerramento de 71 escolas.

Burundi e Seychelles mantiveram pelo menos algumas escolas abertas durante a pandemia.

Ásia

Cerca de 520 mil alunos voltaram na segunda-feira passada às aulas em Pequim. Este foi o último grupo de alunos à voltar às escolas, tendo a reabertura começado a 29 de agosto. Nas escolas da capital da China é feita a medição da temperatura e a desinfeção à chegada. Em termos de duração das aulas, cada escola tem o seu próprio programa.

Já no Japão, os alunos voltaram às escolas na última semana de agosto, após umas férias mais curtas do que o habitual para compensar o tempo perdido.

Nas escolas da Coreia do Sul assiste-se também a uma nova realidade: as crianças almoçam separadas por páineis de plástico que as separam dos seus amigos. O uso de máscara é obrigatório, exceto quando brincam no recreio. A temperatura é verificada duas vezes todas as manhãs, primeiro em casa e depois no portão da escola.

"Alguns países da Ásia, particularmente a Coreia do Sul, fornecem um bom modelo de como as escolas podem fornecer ensino presencial durante a pandemia", disse Zoë Hyde, epidemiologista da University of Western Australia em Perth, à revista Nature.

Os alunos da Coreia do Sul voltaram às aulas ainda em maio, quando os casos diários caíram para 50. Mesmo com taxas de transmissão baixas, o governo introduziu medidas para controlar a propagação do vírus, como a reabertura de escolas por etapas e, em escolas maiores ou em cidades onde os casos estavam a aumentar, apenas uma parte dos alunos comparecia nas aulas. Quando alguém testava positivo, recorria ao ensino online.

A Arménia prepara-se para abrir as escolas na próxima semana. Esta semana, os testes aumentaram entre alunos, professores e funcionários, que estão a ser aconselhados também a fazer uma auto-quarentena antes do regresso às aulas.

De acordo com as últimas diretrizes para reabertura de instituições de ensino, emitidas pelo Ministério da Educação, as turmas serão divididas em dois grupos menores, enquanto os alunos alternam entre a primeira e a segunda metade do dia. Para compensar os dias letivos mais curtos, as aulas também acontecem aos sábados. As máscaras são obrigatórias nas aulas.

O Governo da Índia lançou também esta semana diretrizes para a reabertura parcial e de forma voluntária das escolas. De acordo com as normas, reveladas pelo Times of India, os alunos podem visitar as escolas para orientação dos professores, com permissão por escrito dos encarregados de educação.

Todos os presentes nas escolas devem usar máscara. Apenas as escolas que estão fora da chamada "zona de contenção" vão poder abrir e todas são aconselhadas a utilizar espaços ao ar livre. As aulas e aconselhamento com professores podem ser feitos de forma virtual.

Encorajados por uma queda do número de infeções, os líderes de Israel reabriram totalmente os edifícios escolares em maio. Crianças com mais de 7 anos devem usar máscaras quando estiverem fora da sala de aula, e crianças mais velhas devem usar máscaras durante todo o dia. Porém, logo na primeira semana uma escola registou mais de 250 casos entre alunos e funcionários.

A reabertura coincidiu com uma onda de calor que obrigou a fechar as janelas das salas de aulas, já lotadas. Cerca de 250 escolas foram obrigadas a fechar novamente. Alguns especialistas acreditam que a reabertura das escolas originou uma "semana vaga" de casos no país.

No Irão, as escolas reabriram para 15 milhões de alunos em 5 de setembro, depois de sete meses fechadas. Uma fotografia de uma aula, partilhada por uma jornalista, tem circulado na Internet. Na imagem é possível ver alunos sentados dentro de tendas transparentes.

Oceânia

Na Nova Zelândia, as aulas foram interrompidas a 24 de março e retomadas no final de maio. A estratégia do país, que registou apenas 1.793 infetados desde o início da pandemia, para conter o coronavírus foi eficaz. As escolas oferecem transporte aos alunos que não conseguiam apanhar o autocarro, depois de terem limitado o número de passageiros.

Já na Austrália, algumas escolas reabriram no mês de julho, mas duas semanas depois foram forçadas a encerrar devido ao aparecimento de surtos e de infeções entre professores e alunos. Nas escolas não houve redução do tamanho das turmas, que podem ter entre 20 a 30 alunos. Inicialmente, os professores não foram aconselhados a utilizar máscara de proteção.