Coronavírus

Covid-19. Bruxelas mais pessimista sobre retoma na zona euro em 2021 face à pandemia

OLIVIER HOSLET / EPA

Melhora ligeiramente as projeções macroeconómicas para este ano, antecipando um recuo do Produto Interno Bruto na ordem dos 7,8%.

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A Comissão Europeia reviu esta quinta-feira em baixa o ritmo de retoma da economia da zona euro em 2021 face ao ressurgimento da pandemia da covid-19, estimando agora que só recupere 4,2% após uma contração de 7,8% este ano.

Nas suas previsões económicas de outono, publicadas esta quinta-feira, Bruxelas melhora ligeiramente as projeções macroeconómicas para este ano, antecipando agora um recuo do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem dos 7,8% no espaço da moeda única - o que continua a ser um recorde negativo -, quando em julho, nas previsões intercalares de verão, apontava para uma queda de 8,7%.

Para o conjunto dos 27 Estados-membros, a Comissão também melhora em nove décimas a previsão de julho passado, antecipando agora um recuo de 7,4% este ano, contra 8,3% no verão.

No entanto, a revisão em baixa do ritmo de retoma no próximo ano, face ao agravamento da situação epidemiológica na Europa, é mais significativa, com Bruxelas a retirar quase dois pontos à projeção do verão para o crescimento do PIB na zona euro em 2021, passando de 6,1% para 4,2%, e a agravar também a perspetiva de recuperação no conjunto da União, antecipando agora um crescimento económico dos 27 de apenas 4,1% no próximo ano, quando em julho projetava uma subida de 5,8%.

Bruxelas estima que o retoma prossiga em 2022 com um crescimento económico de 3% tanto na zona euro como na UE, assumindo que tal significa que nem dentro de dois anos a economia vai voltar aos níveis registados antes da pandemia da covid-19, quer no espaço da moeda única, quer no conjunto dos 27 Estados-membros.

Apontando que a economia europeia registou uma "recuperação forte" no terceiro trimestre deste ano, quando foram gradualmente levantadas as restrições impostas na primavera pelos Estados-membros para conter a propagação da pandemia, a Comissão nota que, "no entanto, o ressurgimento da pandemia nas últimas semanas está a resultar em disrupções à medida que as autoridades nacionais introduzem novas medidas de saúde pública", e alerta que as projeções de retoma hoje divulgadas podem até ser novamente revistas em baixa.

"A situação epidemiológica significa que as projeções de crescimento ao longo do horizonte da previsão estão sujeitas a um grau extremamente elevado de risco e incerteza", adverte.

Nestas previsões de outono, a Comissão estima que as medidas económicas robustas de emergência adotadas pelos Estados-membros para mitigar os efeitos da pandemia levarão a um aumento "muito significativo" e generalizado do défice público por toda a Europa, projetando que, na zona euro, este aumente de 0,6% do PIB em 2019 para cerca de 8,8% em 2020, antes de recuar para 6,4% no próximo ano e para 4,7% em 2022.

No mesmo sentido, também a dívida pública na zona euro deverá aumentar de 85,9% do PIB em 2019 para 101,7% este ano e para 102,3% em 2021, sendo que prosseguirá a sua trajetória ascendente ainda em 2022, ano em que o valor agregado deverá atingir os 102,6%.

A nível do desemprego, o executivo comunitário nota que as medidas "sem precedentes" adotadas na Europa para proteger os postos de trabalho, designadamente através de regimes de horário reduzido, permitiram que esta taxa permanecesse relativamente estável comparativamente à queda da atividade económica, mas alerta que "o desemprego vai continuar a aumentar em 2021, à medida que os Estados-membros eliminarem progressivamente as medidas de apoio de emergência e novas pessoas entram no mercado de trabalho".

Assim, Bruxelas estima que a taxa de desemprego na zona euro aumente de 7,5% em 2019 para 8,3% este ano e para 9,4% no próximo, recuando para 8,9% em 2022.

A Comissão sublinha que estas projeções macroeconómicas de outono estão rodeadas de incertezas e riscos de agravamento, o principal dos quais associado a um potencial agravamento da pandemia da covid-19 que exija medidas com um impacto ainda "mais severo e duradoura na economia".

"Há também o risco de que as cicatrizes deixadas pela pandemia na economia, tais como falências, desemprego de longa duração e ruturas de abastecimento, seja ser mais profundo e de maior alcance", aponta, acrescentando que "a economia europeia também poderá ser afetada negativamente se a economia global e o comércio mundial melhorarem abaixo do previsto ou se as tensões comerciais aumentarem".

Do lado positivo, salienta, o plano de recuperação económica europeu, o chamado 'NextGenerationEU', poderá dar "um impulso ainda mais forte à economia da União Europeia do que o projetado", da mesma forma que um acordo comercial entre UE e Reino Unido -- que Bruxelas e Londres estão a tentar 'fechar' em 'contra-relógio' face à proximidade do fim do chamado de período de transição do 'Brexit' -- poderia ter também "um impacto positivo na economia da UE a partir de 2021".

"Estas previsões têm lugar numa altura em que uma segunda vaga da pandemia desencadeia ainda mais incertezas e mina a nossa esperança numa rápida retoma. O desempenho económico da UE não voltará aos níveis pré-pandémicos antes de 2022", assumiu o vice-presidente executivo da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis, numa primeira reação às projeções macroeconómicas de outono.

O comissário que tem a seu cargo a pasta de "Uma Economia ao Serviço das Pessoas" aproveitou para exortar Parlamento Europeu e Conselho a concluírem rapidamente as negociações em torno do plano de relançamento proposto pela Comissão e acordado pelos líderes europeus em julho passado, de modo a que "o dinheiro comece a fluir em 2021", permitindo à Europa "investir, reformar e reconstruir".