Coronavírus

OMS acusada de conspirar com Itália para esconder relatório sobre a covid-19 

Claudio Furlan

Relatório falava sobre a resposta inicial de Itália à pandemia.

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A Organização Mundial da Saúde está a ser acusada de conspirar com o Ministério da Saúde italiano para remover um relatório que revelava a má gestão do país no início da pandemia do novo coronavírus.

O relatório foi feito pelo cientista Francesco Zambon da OMS e por outros 10 profissionais europeus da organização. O estudo foi financiado pelo governo do Kuwait, com o objetivo de fornecer informação aos países que ainda não tinham sido atingidos pela pandemia, numa altura em que os casos estavam a surgir pela primeira vez em Itália.

"Um desafio sem precedentes: A resposta inicial de Itália à covid-19" foi publicado no site da OMS a 13 de maio e, segundo o The Guardian, retirado no dia seguinte.

O relatório de 102 páginas

O relatório dizia que o plano de pandemias em Itália não era atualizado desde 2006 e, por conseguinte, o país não estava preparado e a resposta inicial dos hospitais foi "improvisada, caótica e criativa".

Claudio Furlan

O The Guardian adianta que este relatório foi alegadamente removido a pedido de Ranieri Guerra, o diretor-geral da OMS para Iniciativas Estratégias. Entre 2014 e 2017, Guerra foi o diretor-geral de Saúde Preventiva no Ministério da Saúde italiano. Ou seja, era responsável pela atualização do plano de pandemias no país.

A não atualização do plano está a ser um elemento crucial nas investigações preliminares levadas a cabo por uma equipa de procuradores de Bergamo e pode vir a ser considerada crime por negligência pelas autoridades. Na investigação, os procuradores estão também a recorrer a um relatório de conclui que cerca de 10 mil mortes por covid-19 no país foram causadas pela falta de protocolos anti pandemia.

A ameaça de despedimento

De acordo com o jornal britânico, Zambon alega que Guerra o ameaçou de ser demitido se não alterasse uma parte do texto que referia que o plano de pandemias não estava atualizado.

Na altura, a OMS não esclareceu o motivo da remoção do relatório do site, mas através de um comunicado, divulgado na passada semana, explicou que continha informação "imprecisa e inconsistente".

Zambon diz que, um mês antes da publicação do relatório, enviou um esboço a Guerra, que partilhou com o ministro da Saúde italiano, Roberto Speranza.

Ministro da Saúde italiano, Roberto Speranza

Ministro da Saúde italiano, Roberto Speranza

Roberto Monaldo

O The Guardian teve acesso a emails recebidos por Zambon, em maio, que foram enviados por Guerra e Hans Kluge, o diretor europeu da OMS, que é também o autor da introdução do relatório removido. Na correspondência eletrónica, parece haver um pacto feito com o ministro italiano para manter o relatório escondido.

As reações

Num comunicado enviado ao jornal britânico, a OMS diz estar a trabalhar com o governo italiano para "esclarecer o problema".

"Percebemos que a divulgação e posterior remoção do relatório causou confusão e, de acordo com isto, atualizámos os nossos procedimentos de publicação."

O Ministério da Saúde italiano negou qualquer envolvimento no caso, dizendo que este não é um relatório oficial da OMS e que nunca foi enviado para o ministério.

"As informações a respeito do casos não vêm de fontes institucionais"

Os números em Itália

Desde o início da pandemia, Itália já registou 63.387 mortes por covid-19, em mais de 1,7 milhões de casos.

Apesar do elevado número de óbitos, o número de pacientes internados continua a diminuir, sendo de 28.562 (526 a menos que na quinta-feira), mas 3.265 ainda estão em cuidados intensivos, reduzindo 26 em relação ao dia anterior.

A pandemia de covid-19 provocou pelo menos 1.580.721 mortos resultantes de mais de 69,5 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.