Coronavírus

Senti o meu corpo a reagir ao vírus, mas aprendi a ver o mundo da janela do quarto

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

A covid-19 chegou cá a casa sem ser preciso sair à rua. Tive sintomas e assustei-me, sobretudo porque os olhos pesavam e ardiam. Passei manhãs a olhar para o teto do quarto, sem conseguir escrever mensagens nem ver televisão. Mas a luz ao fundo ao túnel chegou com uma enfermeira. A voz do outro lado do telefone era calma e segura. Agora estou curada e quero agradecer-lhe.

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"Um colega meu testou positivo". Depois do "bom dia, filha", foi a primeira coisa que o meu pai me disse no dia 31 de dezembro. Encolhi os ombros, mas na verdade fiquei em alerta. Apesar da máscara, sabia que o contacto tinha sido próximo, em contexto de trabalho. O meu pai ficou em isolamento profilático nesse dia. Eu também não voltei a sair de casa por precaução.

Três dias depois senti-me doente, mas, ao espelho, pareceu-me uma amigdalite - de dois em dois meses lá vem ela para me chatear. No dia 6 de janeiro, acordei a sentir-me com febre e com o termómetro a marcar 37,5. As dores de garganta e de cabeça eram fortes. Voltei para a cama para descansar. Horas depois, o meu pai recebeu a notícia: estava infetado com covid-19.

Não disse isto a ninguém, mas foram dos dias mais difíceis da minha vida. Entre telefonemas para a SNS24, para o trabalho e para clínicas para marcar o meu teste, sentia o meu corpo a reagir "a alguma coisa". Às dores de cabeça e de garganta, juntou-se um cansaço e um ardor nos olhos e na zona das bochechas. Os olhos ficavam cada vez mais pesados. Só podia ser covid, pensei.

"Positivo"

No dia seguinte já não consegui trabalhar. Saí para fazer o teste numa clínica a dois minutos de casa e voltei para a cama. Os sintomas eram permanentes: dor de cabeça e de garganta, ardor nos olhos, nos lábios e nas narinas e um cheiro horrível que parecia entranhado no meu nariz. Depois veio a tosse, perdi o olfato e o paladar e apareceram manchas vermelhas no corpo. O resultado do meu teste chegou quase à meia noite, quando já toda a gente cá em casa dormia.

"Positivo".

Abri o email vezes sem conta. Não queria acreditar. Apesar de saber que se passava alguma coisa comigo, "a esperança é a última a morrer".

Desabafei com os poucos amigos acordados àquela hora. Senti-me frustrada, injustiçada e com medo. Tinha passado o Natal e o Ano Novo com o meu agregado familiar, longe dos avós, primos, tios e amigos, porque tinha de ser. Mas mesmo assim, o vírus chegou cá a casa. 10 mil novos casos de covid-19 por dia em Portugal e eu era um deles.

Chorei sozinha, sem dizer a ninguém

Os primeiros dias não foram fáceis. Chorei sozinha, sem dizer a ninguém. O meu pai estava isolado no quarto, eu no meu e a minha mãe na sala ainda à espera do resultado do teste, com tosse que acusa doença e picos de febre. A minha irmã, a única com teste negativo na altura, cuidava de nós. Fazia-nos o almoço, tratava das nossas louças e roupas e desinfetava a casa de banho cada vez que tínhamos de lá ir. Ao mesmo tempo, tinha de estudar para os exames da faculdade.

Estávamos os quatro entre quatro paredes, sem poder mudar nada.

Numa das reflexões que fiz sobre o vírus, percebi que não se fala muito sobre o que pensamos nestas alturas. As frustrações, a culpa de, possivelmente, termos infetado outras pessoas, o medo dos sintomas, o que sentem os nossos familiares.

Às vezes, não sabia se a minha dificuldade em respirar era ansiedade ou os meus pulmões a pedirem ajuda.

Leio e escrevo sobre o vírus todos os dias no trabalho. Há um ano que falo com pessoas infetadas, médicos e especialistas e perdi a conta das entrevistas que ouvi sobre o assunto. Estava informada. Mas nunca me imaginei do outro lado. Do lado do doente. Isolado, com sintomas.

A luz ao fundo do túnel chegou com uma enfermeira

Ao quinto dia comecei a ver a luz ao fundo do túnel. Não sei o nome dela, nem lhe disse, mas a enfermeira que fez o acompanhamento dos meus sintomas foi muito importante no meu processo de cura. Do outro lado do telefone, a voz era calma, segura e de esperança. Disse-me para tomar dois banhos por dia, se possível, e beber muito sumo de laranja e limonada "porque o bicho odeia água, sabão e citrinos".

Os sintomas começaram a diminuir. Até o sol brilhou mais.

Numa das chamadas, a enfermeira cujo nome não decorei reconheceu pela minha voz que eu já estava "bem melhor", a recuperar "muito bem". Não me vou esquecer dela e gostava muito de lhe agradecer. Ela não sabe, mas agarrei-me à força e à energia que me passava pelo telefone e decidi que ia sair da cama, respirar ar puro pela janela e enfrentar o vírus. Afinal, a cada dia a cura estava mais próxima. Assim foi.

Recuperei em casa e já tive alta. Para quem estiver agora em casa a passar pelo vírus, quero dizer que não estão sozinhos. Agarrem-se aos amigos e à família, às enfermeiras e médicos que ligam diariamente, ao mundo que podem ver pela janela do quarto. A vida continua e está à vossa espera.

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