Coronavírus

Covid-19. Argentina supera os 100 mil mortos apesar das severas restrições

Agustin Marcarian

A gestão da pandemia na Argentina foi marcada pela mais prolongada e estrita quarentena do mundo que durou 233 dias durante 2020.

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A Argentina superou esta quarta-feira as 100 mil mortes por covid-19 num processo marcado pelas severas medidas de restrição e por uma campanha de vacinação ideologizada que deixa o país vulnerável à iminente chegada da variante Delta.

Com 614 novas vítimas fatais, a Argentina chegou aos 100.250 falecidos.

"É uma cifra tremendamente dolorosa. Tem de levar-nos a refletir sobre o que podíamos ter feito melhor, sobretudo para não continuarmos a cometer erros daqui para frente", pediu Fernán Quirós, ministro da Saúde do Distrito Federal de Buenos Aires, governador pela oposição.

Em abril de 2020, ainda no começo da pandemia, o Presidente argentino, Alberto Fernández definiu o que seria a sua política.

"Prefiro ter 10% a mais de pobres do que 100 mil mortos na Argentina", afirmou.

Um ano e meio depois da primeira morte em 07 de março de 2020, a Argentina não só ultrapassou a trágica cifra como também está a ponto de confirmar o aumento da pobreza em 10%.

Quando chegou ao poder em dezembro de 2019, a pobreza na Argentina chegava a 35,5%. Atualmente, está em 43,5%, mas a inflação projetada de 50% em 2021, permite prever que a cifra já esteja próxima de ser atingida.

A gestão da pandemia na Argentina foi marcada pela mais prolongada e estrita quarentena do mundo que durou 233 dias durante 2020. A economia chegou ao seu terceiro ano de queda, encolhendo 10% no ano passado. Em 2021, o país adotou um toque de recolher e nunca suspendeu as restrições de circulação internas entre as províncias.

A imagem do Presidente Alberto Fernández caiu em sintonia com o acúmulo de mortes. Segundo a sondagem da Giacobbe & Asociados, Alberto Fernández passou de 68% de imagem positiva, em abril do ano passado, a 24% um ano e meio depois. A sua imagem negativa agora chega a 62,8%.

Em 2021, as fronteiras terrestres ficaram fechadas até mesmo para os argentinos. A única porta de entrada ao país é o aeroporto internacional de Buenos Aires. A Argentina é o único país no mundo a restringir o regresso dos seus próprios cidadãos no exterior. Cerca de 25 mil argentinos esperam, sem nenhuma ajuda do Estado, a chance de voltar para casa. A cifra aumenta a cada dia já que apenas 750 pessoas podem entrar no país, diariamente.

"Tanto a estratégia do medo quanto a da culpa só geram dificuldade na gestão da pandemia", critica Fernán Quirós.

A campanha de vacinação, tardia e lenta, começou com um escândalo conhecido como 'Vacinação VIP': milhares de políticos, militantes e amigos do poder vacinados de forma clandestina, mesmo sem cumprirem os critérios de idade e de comorbilidades.

O Governo preferiu as vacinas de Rússia e China, em detrimento dos laboratórios norte-americanos. Atualmente, aplica a russa Sputnik V, a chinesa Sinopharm e a britânica AstraZeneca, fabricada no país pelo laboratório de um empresário próximo ao poder.

"Se temos mais de 100 mil mortos foi porque o país vacinou muito mal e há razões ideológicas para isso. O Governo optou pelas vacinas da Rússia e da China e os laboratórios norte-americanos, principalmente a Pfizer. Aqui há uma má gestão e uma razão ideológica", acusa o analista político, Joaquín Morales Solá.

Atualmente, 45,4% da população tem uma dose enquanto apenas 11,3% tem as duas doses.

"O Governo administrou a pandemia com uma lógica da 'diplomacia das vacinas' da Rússia e da China", concorda o analista político Rosendo Fraga.

A vacina chinesa tem uma efetividade mais baixa; a russa tem problemas de produção. A segunda dose da Sputnik V, cuja aprovação emergencial não requereu nenhum ensaio clínico adicional, chega ao país de forma escassa, deixando cerca de sete milhões de pessoas sem a vacinação completa.

Perante a escassez de vacinas, a prioridade foi aplicar a primeira dose à maior quantidade de pessoas possível, aumentando o intervalo entre a primeira e a segunda dose de três semanas a três meses.

"A estratégia de uma dose foi correta para as variantes anteriores, mas deixa o país vulnerável perante a iminente chegada da variante Delta. O desafio agora é conseguir a segunda dose", indica o ministro da capital argentina, Fernán Quirós, quem começou os ensaios clínicos para combinar vacinas de fabricantes diferentes, devido à falta da segunda dose da Sputnik.