Coronavírus

A Covid-19 ainda não é endémica

OPINIÃO DE TIAGO CORREIA

A Covid-19 ainda não é endémica

É claro que a pandemia ainda não passou à fase endémica. Virá esse tempo, assim como o tempo de deixar o vírus circular na população. Sim, na fase endémica deste vírus a imunidade natural será tanto inevitável quanto desejável. Mas este não é ainda esse tempo. É possível que não demore assim tanto porque a Ómicron reúne características que potenciam essa transição: é mais transmissível, não é mais patogénica e incide em populações mais protegidas, quer por infeções anteriores quer pela vacinação.

Mas o argumento de que a Ómicron levará a pandemia à fase endémica ainda precisa de ser provado no dia-a-dia. Mais importante é reconhecer que precisamos de mais tempo para obter esta resposta. Nas últimas semanas, não houve nenhum elemento novo no debate científico que permitisse a alguém advogar que pandemia teria passado, que os casos atuais de doença ou de morte por Covid-19 fossem inevitáveis, ou que algum país consiga virar a página enquanto os seus vizinhos e o mundo continuam a braços com as mesmas dificuldades dos últimos meses.

No debate público, a adjetivação “endemia” ainda não foi acompanhada da devida explicação, o que tem contribuído para a reprodução do ruído. Endemia não significa que um agente infecioso desapareça ou que deixe de causar vítimas. Isso traduz a erradicação.

A definição de endemia não é unívoca. Endemia pode significar algo que é menos expressivo, mas também algo que é característico ou então previsível. Como se percebe, dizer que uma doença é menos expressiva não é o mesmo que dizer que uma doença é típica em determinados grupos etários, ou que é previsível nalguma região ou período do ano.

Quando as doenças são classificadas como endémicas, no fundo isso traduz a diminuição do impacto de uma doença na população, o pode advir de um, dois ou dos três significados acima enumerados. Não há regra neste julgamento e este julgamento nem sempre reúne consenso. A questão é que até hoje nenhuma entidade internacional nem nenhum país sentiu o conforto suficiente para argumentar quanto à entrada na fase endémica deste vírus.

Tal significaria que a Covid-19 seria menos expressiva, mais característica em determinados grupos populacionais ou mesmo previsível nas suas curvas de contágio. Contudo, o desequilíbrio mundial no acesso às vacinas, o fenómeno da hesitação vacinal, a necessidade de reforço de vacinação de grupos vulneráveis, o aumento da hospitalização incluindo em idades pediátricas no contexto da Ómicron, dúvidas sobre os efeitos de longa duração da Covid-19 e a duração da defesa imunitária mostram o quanto é prematuro falar na fase endémica deste vírus sob qualquer um daqueles três significados.

Israel é o país em melhor condição para comprovar a fase endémica deste vírus, mas apenas dentro de fronteiras. Depois será o tempo de perguntar como é que isso se assegura em contextos de fronteiras abertas.