Coronavírus

Covid-19 e outras doenças 

04.05.2022 14:37

Há doenças que provavelmente apresentarão sintomas mais intensos ou surtos que se intensificam fora de tempo por conta do retomar da normalidade. Aqui incluem-se os vírus da gripe, gastroenterites, alergias e muitos outros agentes infeciosos que de repente parecem não nos largar.

Os últimos dias foram marcados por notícias sobre surtos de sarampo e casos de hepatites agudas em crianças cujas causas ainda estão por apurar. Seria expectável, tal como veio a acontecer, que se procurassem associações de causa-efeito com a gestão da Covid-19.

No entanto, importa perceber que estas e outras doenças mantêm diferentes tipos de relações com a pandemia, pelo que é tão abusivo ignorar os problemas agravados pela pandemia como é fazer da gestão da pandemia o bode expiatório dos problemas que sabemos que temos pela frente.

O bode expiatório advém de uma pequena minoria ruidosa para quem os efeitos colaterais da gestão pandemia seriam evitáveis, dado que muito do que foi feito, senão tudo, foi desproporcional e sem suporte em evidência.

Ignora-se que a Covid-19 é uma sindemia e os motivos de ter acontecido o que vimos acontecer em países tão diferentes como Itália, EUA, Brasil, Índia ou também Portugal (no inverno de 2021). Também não se explica que alternativas podiam ter protegido os mais vulneráveis se: 1) não havia imunidade natural contra um vírus novo, 2) não havia conhecimento de como criar a proteção induzida por vacinas ou outros tratamentos, 3) a população europeia, mais ainda a portuguesa, está em claro ritmo de envelhecimento, 4) as estruturas familiares baseiam-se em relações inter-geracionais, 5) as principais infraestruturas onde contactam diariamente centenas e milhares de pessoas não estão devidamente equipadas para a monitorização, extração e purificação do ar, 6) um número considerável de pessoas tem outras doenças que até há pouco tempo não se sabia o quanto eram agravadas pela Covid-19.

Até ao momento, a análise comparativa continua a mostrar que, por norma, as medidas não farmacológicas e farmacológicas que conhecemos foram necessárias, o que não ignora o facto de muito do que sabemos ter sido aprendido no curso de um caminho demasiado sinuoso.

Portanto, sim, é necessário encarar com transparência os problemas agravados pela Covid-19. À luz do que se sabe até ao momento, é abusivo estabelecer uma associação entre a hepatite atípica nas crianças e o retomar da normalidade após dois anos de vida em bolha. A par de outras doenças, como as meningites, ou de outros surtos, como o ébola, há agentes infeciosos cujos efeitos clínicos existem independentemente do que foi feito em relação à Covid-19.

Mas há doenças que provavelmente apresentarão sintomas mais intensos ou surtos que se intensificam fora de tempo por conta do retomar da normalidade. Aqui incluem-se os vírus da gripe, gastroenterites, alergias e muitos outros agentes infeciosos que de repente parecem não nos largar.

Os casos de sarampo remetem para outro nível de problema causado pela pandemia. Tal como está a acontecer com a tuberculose, o HIV, doenças oncológicas, mentais e cardiovasculares, a gestão da Covid-19 veio interromper rastreios, programas de vacinação, tratamentos e o acompanhamento de doentes. A onda de arrasto destes efeitos será demorada e antevê-se que bastante negativa. Num relatório conjunto, a OMS/UNICEF afirmam que em 2020, 23 milhões de crianças não completaram o esquema básico de vacinação, o valor mais alto desde 2009. Também, que em 2022, 203 milhões de pessoas continuarão sem o acesso a programas de vacinação contra doenças evitáveis por causa da pandemia.

Sublinho o que já disse: isso não transforma a gestão da Covid-19 num erro; o que mostra é a sua natureza sindémica. Isto significa que o compromisso com as políticas de saúde não pode passar para segundo plano. Depois do que foi pedido aos profissionais de saúde durante a fase aguda da pandemia, o que se pede agora são planos de recuperação das atividades suspensas. Mais financiamento e mais profissionais de saúde são imprescindíveis para fazer face ao futuro próximo.

Num contexto internacional agravado por uma guerra cujo desfecho continua incerto e de fortes dúvidas sobre o contexto macroeconómico, há que manter um diálogo constante com as populações sobre os riscos potenciais para a saúde e a enormidade do trabalho que os sistemas de saúde têm que assegurar. Fazer de conta que tudo passou ou que não volta a repetir seria um erro crasso e com consequências demasiado graves.

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